Estou convencido de que muitas ideias fundamentais para uma cosmovisão cristã sejam ideias que as pessoas já acreditam sem ter de serem persuadidas para elas.

A maioria acredita, por exemplo, que o universo foi projetado por alguém (Gn 1:1). Elas podem não admitir de imediato, mas referências constantes à “Mãe Natureza” denunciam suas convicções mais profundas. Eles acreditam que os seres humanos sejam especiais, valiosos de um modo transcendente (Gn 1:27). É por isso que é permitido usar gás para matar cupins, e não judeus. Elas também estão convencidas de que alguma coisa no mundo está terrivelmente errada, e que nós seres humanos somos moralmente tortos e dignos de punição (Rm 3:23). Isso é a origem do problema do mal.

Cada um desses elementos essenciais da cosmovisão de Jesus são coisas que todos nós sabemos. Mas como? Essas coisas são conhecidas através de uma faculdade humana chamada intuição. Quando digo intuição, quero dizer algo muito particular. Não quero dizer que seja um mero palpite. Não quero dizer que seja uma linha de raciocínio para uma conclusão ou uma habilidade aprendida ao longo do tempo — análoga à maneira como um rebatedor experiente no beisebol “percebe” por onde o próximo arremesso vai chegar.

Na verdade, as intuições não são aprendidas de alguma forma. Elas são algo com que nascemos, é informação colocada em nossas mentes por um sábio Criador. Nossos fundadores chamavam essas informações de verdades “evidentes”.

O filósofo J.P. Moreland apontou que, se você não conseguir conhecer algumas coisas sem saber por que as conhece — ou seja, se você não tiver algumas ideias no lugar certo para começar — você não conseguirá conhecer absolutamente nada mais. Você não conseguirá nem iniciar a tarefa de descobrir coisas novas. Aristóteles observou que certas coisas não podem ser provadas no sentido usual do termo, e que, sem elas, nada mais poderia ser provado.

A um tempo atrás, durante uma sessão de perguntas e respostas após uma palestra que dei [Greg Koukl] numa faculdade liberal, perguntei a um aluno se ele sabia o que ele estava pensando naquele momento. É claro que ele sabia. Mas como ele sabia? Ele precisou do relatório de um cientista sobre os estados físicos de seu cérebro para conhecer seus próprios pensamentos? É claro que não. Ele tinha acesso direto e imediato à sua própria mente. Esse tipo de coisa nós tomamos como certas. Levantar questionamentos sobre isso parece perda de tempo.

O conhecimento por intuição é assim. É imediato, direto e óbvio. Como a nossa percepção intuitiva nos oferece uma verdade confiável sobre nosso mundo, ela pode ser uma aliada poderosa para evangelismo, se soubermos usá-la adequadamente.

Durante uma conferência sobre “Ciência e Fé” a alguns anos atrás, me pediram para provar que havia propósito no universo. Eu havia respondido que o propósito não é algo que precisamos argumentar a favor: é algo que já sabemos intuitivamente. Para tornar alguém ciente disso, pergunte algo que faça com que a intuição venha à tona.

Por exemplo, pergunte a uma pessoa se ela procuraria conversar melhor com alguém que quisesse cometer suicídio. Se sim, porque? Eu suspeito que ela irá dizer que o suicídio é um desperdício de uma vida valiosa. Mas como pode uma vida ser desperdiçada se não tiver um propósito final?

Ela já lamentou pela morte trágica de um excelente estudante do ensino médio? Ou por uma criança tomada por uma doença ou algum desastre natural? Ou pela Princesa Diana que se acidentou e morreu no auge da vida? Todas essas mortes parecem “intempestivas”, ocorridas antes do tempo. No entanto, uma vida sem propósito não tem um fim designado.

Nossas reações a esses exemplos são espontâneas, imediatas e intuitivas. No fundo, sabemos que a vida de cada pessoa é destinada a um fim, a uma meta que essas catástrofes interromperam. Mas o que seria trágico a respeito de qualquer morte, se a vida não tivesse um propósito intrínseco? Nossa resposta a esses questionamentos demonstram que nós, de fato, concordamos com as Escrituras, em que todas as pessoas têm um propósito para além de sua existência temporal (Ec 3:11).

Neste ponto, há uma questão importante que deve ser feita: qual é a cosmovisão que mais faz sentido com a ideia de que os seres humanos tenham propósito? Ou que o universo tenha sido projetado por alguém? Ou que os seres humanos são valiosos, mas falhos, precisando de perdão e redenção?

Viu o que fiz? Comecei falando de uma experiência comum e fiz perguntas a fim de colocar as pessoas em contato com o conhecimento intuitivo delas mesmas. Então peça a elas que pensem a respeito. Como sou cristão, não tenho com o que me preocupar. Minha cosmovisão já explica tudo isso. As afirmações do cristianismo ressoam em favor das nossas intuições mais profundas sobre como o mundo realmente é.

Eu chamo esta tática de “Contracapa do Livro”. Eu conheço algumas coisas que outras pessoas também conhecem, mesmo que elas não estejam imediatamente conscientes delas. Eu conheço esses segredos, em certo sentido, porque Deus os revelou. Eu já li a contracapa do livro. Eu sei o final da história.

C.S. Lewis usou esse tipo de conhecimento com maestria. Os capítulos iniciais de seu livro clássico, Cristianismo Puro e Simples, são dedicados a desmembrar nossa consciência intuitiva da moralidade. Mais tarde, em A Abolição do Homem, Lewis documenta parte do conteúdo desse conhecimento universal evidente em qualquer cultura: proibição ao assassinato, roubo, estupro, adultério; louvor ao heroísmo, altruísmo, abnegação, honestidade.

Em seu livro The 10 Most Common Objections to Christianity (“As 10 Objeções Mais Comuns ao Cristianismo”), Alex McFarland observa:

O estudo de Lewis (e outros de apologistas e sociólogos cristãos) prova que grupos diferentes de pessoas e culturas, embora não tivessem contato umas com as outras, tinham códigos morais e estruturas éticas similares pelas quais viviam. Isso não quer dizer que os humanos sempre fazem aquilo que é moralmente correto: Lewis e outros afirmam que todas as culturas, intuitivamente sabem o que é correto.

Deixe-me dar um exemplo dramático de como faço uso disso num ambiente universitário. Quando eu lecionava sobre relativismo moral para uma platéia em pé em Berkeley, eu disse aos estudantes que eu sabia alguma coisa sobre eles que eles sabiam sobre si mesmos, mas que não sabiam que eu sabia: cada um deles tinha uma auto-imagem ruim. Como eu sabia disso? Porque todo mundo tem uma auto-imagem ruim, até eu mesmo.

Nos momentos mais honestos, eu disse: “olhamos para dentro de nós mesmos e vemos algo distorcido e feio, um quebrantamento moral que não podemos negar”. Na verdade, temos um sentimento muito forte associado a esse problema, e esse sentimento tem um nome. “O que é isso?”, perguntei.

O público me deu a mesma resposta que sempre recebo nessas situações: o sentimento é chamado de culpa. Então perguntei por que cada um deles se sente culpado. “Talvez seja uma construção social”, eu respondi, “ou então uma pressão de poder da cultura. Eu acho que isso pode ser a resposta. Mas há outra possibilidade”, eu disse. “Talvez você se sinta culpado… porque você é culpado. Isso serve como resposta? Essa resposta faz sentido para você?

Eu fiz esta pergunta inúmeras vezes no campus. Ninguém nunca me parou depois e disse que eu estava errado, que essa culpa para eles não era real. Eles não conseguiam. Eles bem sabem — o que faz da minha declaração final ainda mais poderosa — “A resposta à essa culpa não é negá-la”, eu disse. “A resposta para essa culpa é o perdão. E é aqui que Jesus entra.

Veja você, mesmo num ambiente totalmente secularizado de uma universidade liberal, as verdades mais fundamentais do cristianismo têm o poder da verdade para elas.

Porque a Bíblia nos diz coisas verdadeiras sobre cada ser humano — a consciência da existência de Deus, o senso de valor próprio, o conhecimento do nosso próprio pecado e dessa culpa — e nós podemos apelar para essas verdades. Mesmo que uma pessoa negue essas verdades, você pode saber que ela está mentindo para si mesma. No coração dela, ela concorda com você e, em momentos mais desapercebidos, os próprios lábios dela vão afirmar aquelas verdades.

Você não precisa convencê-la dessas coisas. Ela já conhece tais verdades. E como ela sabe? Ela sabe por causa da intuição.


Este texto é uma tradução do artigo de Greg Koukl em “Self-Evident Truths”, no site Stand To Reason.


Saulo Reis
Saulo Reis

Diretor do Acrópole da Fé Cristã e mestrando em Matemática pela Unifesp. Engenheiro de Computação por profissão; professor de Matemática por paixão; Teólogo por amor a Deus.

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