Este texto é uma tradução do artigo A response to philosophical postmodernism, de Norman Geisler. [1]


Uma Resposta ao Pós-modernismo Filosófico

O pré-modernismo normalmente é pensado como a era anterior a 1650 d.C. O tema dominante era a metafisica ou o estudo do ser (realidade). O modernismo então começou com René Descartes por volta de 1650 e voltou a atenção à epistemologia ou como conhecer. A data precisa do pós-modernismo é disputada. Apesar de suas raízes estarem em Friedrich Nietzsche (d. 1900), ele não começou a tomar forma até por volta de 1950 com Martin Heidegger e começar a ocupar a cadeira da frente em discussões uma década ou duas depois com Derrida. O foco primário do pós-modernismo é a hermenêutica ou como interpretar. O objeto da interpretação pode ser a história, a arte, a literatura, mas desconstruir é o foco central.

Alguém ilustrou a diferença entre os três períodos de pensamento utilizando a imagem de um juiz. O juiz pré-moderno diz: “Eu os chamo pelo que eles são”. O juiz moderno clama, “Eu os chamo como eu os vejo”. Mas o juiz pós-moderno declara: “Eles não são nada até eu poder vê-los”.

Precursores do pós-modernismo

O pensamento ocidental moderno começou com dois ramos principais: empirismo e racionalismo. David Hume representou o primeiro e René Descartes o ultimo. O empirista se preocupava com o sensível, e o racionalista com a mente. O empirista começava a posteriori no senso da experiência, mas o racionalista começava a priori com ideias inatas da mente. Immanuel Kant sintetizou os dois ramos, argumentando que os sensos proviam o conteúdo de nosso conhecimento mas a mente dava a forma dele. Ele afirmava que a mente sem os sentidos é vazia, mas os sentidos sem a mente são cegos. O resultado infeliz de sua brilhante, porém trágica síntese era o agnosticismo. Nós não podemos conhecer a realidade como ela é em si mesma, mas apenas como ela é após ser mediada por nós através dos sentidos e formada por categorias em nossa mente. Então, metafísica — conhecendo a realidade em si mesma — é impossível.

O agnosticismo Kantiano, por um lado deu origem ao fideísmo de Soren Kierkegaard e, por outro, ao ateísmo de Nietzsche (*N.T.). Reconhecendo o abismo kantiano entre aparência e realidade, Kierkegaard sugeriu um “salto de fé” para o “totalmente diferente” Deus que transcende toda a capacidade de conhece-lo com nossas mentes. Nietzsche, por outro lado, preferiu não pular para um Deus desconhecido, mas pronunciar Deus como morto e simplesmente ir desejando a eterna repetição do mesmo estado de coisas para sempre.

Na ausência de qualquer Mente absoluta para expressar qualquer sentido absoluto, Ludwig Wittgenstein montou no convencionalismo de Frege e insistiu que nós estamos todos presos dentro de uma bolha linguística que não nos permite fazer declarações cognitivas significativas sobre o místico (metafisico) além. Quer dizer, sem dizer que Deus está morto, ele insistiu que toda a conversa sobre Deus está “morta” (i.e., não faz sentido).

Emprestando do método fenomenológico de Edmund Husserl, o falecido Martin Heidegger postulou uma nova hermenêutica que, desistindo de qualquer conhecimento metafísico da realidade, procurou recuperar os raios da verdade para brilhar através da poesia (particularmente aquela de Friedrich Holderlin). É fora desse contexto que Jacques Derrida concebeu seu método hermenêutico de desconstrução pelo qual alguém desconstrói um texto e reconstrói ele de novo e de novo. Antes de analisarmos isto mais cuidadosamente, será útil contrastar o pensamento moderno e pós-moderno em geral.

Contraste do modernismo e pós-modernismo

Como pode ser visto na tabela a seguir, há um importante desvio entre o pensamento moderno e pós-moderno. O desvio geral é da epistemologia para a hermenêutica; da verdade absoluta para a verdade relativa; de buscar o sentido do que o autor quis dizer para o sentido do que o leitor quer; da estrutura do texto para a destruição do texto; do objetivo de conhecer a verdade para uma jornada de conhecer:

Modernismo Pós-modernismo
Unidade de pensamento Diversidade de pensamento
Racional Social e psicológico
Conceitual Visual e poético
A verdade é absoluta A verdade é relativa
Exclusivismo Pluralismo
Fundacionalismo Anti-fundacionalismo
Epistemologia Hermenêutica
Certeza Incerteza
Sentido do autor Sentido do leitor
Estrutura do texto Desconstruir o texto
O objetivo de conhecer A jornada de conhecer

A natureza do pós-modernismo

Pós-modernismo é a condição onde — já que Deus está morto — “qualquer coisa é possível e nada é certo” (Vaclav Havel). Nietzsche pronunciou que “Deus está morto”, mas existem diversos sentidos diferentes que podem ser dados à essa frase “Deus está morto”. Ela pode significar que Deus está morto

— epistemologicamente: com Kant.
— mitologicamente: com Nietzsche.
— dialeticamente: com Hegel.
— linguisticamente: com Ayer.
— fenomenologicamente: com Husserl.
— existencialmente: com Sartre.
— cognitivamente: com Wittgenstein.
— hermeneuticamente: com Heidegger e Derrida.

Claro, muitos desses pensadores também acreditavam que Deus estava morto realmente (por ex., Nietzsche, Sartre e Derrida), mas isso está fora de questão aqui, quer dizer, a metodologia do desconstrutivismo pós-moderno.

Jacques Derrida: pós-modernismo

Duas das figuras dominantes no pós-modernismo são Jacque Derrida e Paul-Michel Foucault. Derrida escreveu: Of Grammatology (1967); Speech and Phenomena (1967); Writing and Difference(1967); Limited Inc. (1970); Post Card: From Socrates, Freud and Beyond (1972); Specters of Marx (1994). Foucault escreveu: Madness and Civilization (1961); Death and Labyrinth (1963); The Order of Things (1966); Discipline and Punish (1975); Archaeology of Knowledge (1976), e History of Sexuality (1976-1984).

O ponto inicial do pensamento pós-moderno deles foi a morte de Deus de Nietzsche. Pois se não há uma Mente Absoluta, então não há

  1. Verdade absoluta — relativismo epistemológico;
  2. Sentido absoluto — relativismo semântico;
  3. História absoluta — reconstrucionismo.

E se não há Autor Absoluto, então não há

  1. Escrita absoluta — relativismo textual;
  2. Interpretação absoluta — relativismo hermenêutico.

E se não há Pensador Absoluto, então não há

  1. Pensamento absoluto — relativismo filosófico;
  2. Leis de pensamento absolutas — anti-fundacionalismo.

E se não há um Propositador Absoluto (*N.T.), então não há

  1. Propósito absoluto — relativismo teleológico.

Se não há Bem Absoluto, então não há

  1. Certo ou errado absolutos — relativismo moral.

A morte de todos os valores absolutos no pós-modernismo

“Sem Deus e a vida futura? Como o homem viverá depois disso? Isso significa que tudo é permitido agora” (The Brothers Karamazov, Vintage, 1991, p. 589). Como Jean Paul Sartre colocou, “Eu me percebi sozinho, totalmente sozinho no meio desse seu pequeno universo bem-intencionado. Eu era como um homem que perdeu sua sombra. E não havia nada restante no céu, nem certo ou errado, nem qualquer um para me dar ordens” (Sartre, The Flies, 121-122 em No Exit and Three Other Plays). Aldous Huxley reconhece a mesma conclusão quando ele escreve, “A liberação que desejávamos foi simultaneamente uma liberação de um certo sistema politico e econômico e a liberação de um certo sistema de moralidade. Nós protestamos à moralidade porque ela interferia em nossa liberdade sexual” (Ends and Means, 271).

Talvez ninguém tenha descrevido isso melhor do que Bertrand Russell quando ele escreveu sobre um mundo sem Deus: “O homem é o produto de causas que não tinham a previsão do fim que estavam atingindo… Sua origem, seu crescimento, suas esperanças e medos, seus amores e suas crenças, são nada mais que a colocação acidental de átomos… Todo o brilho do meio dia do gênio humano, são destinados à extinção na vasta morte do sistema solar… Apenas dentre os andaimes dessas verdades, apenas no firme fundamente do desespero obstinado, a habitação da alma pode ser seguramente construída daqui pra frente” (Bertrand Russell, “A Free Man’s Worship” (em The Basic Writings of Bertrand Russell, 67).

Em suma, a raiz do pós-modernismo é o ateísmo e seu fruto é o relativismo — relativismo em toda área da vida e do pensamento. De interesse particular está o ataque pós-moderno no fundacionalismo, história, e interpretação textual e como isso afetou o pensamento cristão.


Continua no próximo texto…

Nota do Tradutor 1: Nietzsche não era ateu. Porém, é inevitável pensar que seu pensamento não tenha dado origem a certo “ramo” do ateísmo. A ideia de que a existência da verdade é relativa mas não corresponde à realidade forma, consequentemente, uma visão de mundo ateísta, como se fosse correta.

Nota do Tradutor 2: No inglês, Purposer.

Referências:

[1] Disponível em normangeisler.com/a-response-to-philosophical-postmodernism/. Acesso em 29/mai/2018. Uma cópia dessa página também está disponível em archive.li/i2E6u.


Felipe Forti
Felipe Forti

Formado em Design Gráfico pela FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas e em Teatro pelo Teatro Escola Macunaíma. Atualmente cursa Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie e Dublagem na Dubrasil - Central da Dublagem. Pretendo fazer Teologia assim que possível. Sou apaixonado por Apologética Cristã e entendo que devo estar sempre preparado para fazer uma defesa a qualquer um que me pedir a razão da esperança que há em mim. (1 Pedro 3:15) Sou autor dos livros A Verdade que existe: Amando a Deus com todo o intelecto e A Gênese em Gênesis: Uma Refutação Bíblica do Criacionismo de Terra Jovem. Ambos podem ser comprados no site do Clube de Autores.

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