Muitos dos pensadores modernos encontrarão conforto em admitir que verdades com relação ao mundo físico (que pode ser percebido empiricamente) não são relativas. Admitem eles que, quando vamos no médico, não esperamos dizer ao médico que a doença no diagnóstico é “verdade para ele, mas não para mim”. Contudo, muitos deles encontram problemas com verdades objetivas no que diz respeito à religião, moral e metafísica em geral.

Um dos motivos que levou Ludwig Wittgenstein a abandonar o verificacionismo foi o problema das outras mentes. Colocado de modo simples, o problema de outras mentes é o problema do nosso conhecimento daquilo que ocorre nos estados mentais de outra pessoa.

Isso tudo, porém nos leva a um questionamento: poderíamos pensar em um argumento contra o relativismo da metafísica baseando-nos no problema das outras mentes? A resposta parece ser que sim, e vamos trabalhar no argumento da seguinte forma:

P1. Se verdades metafísicas são relativas, então verdades sobre outras mentes também são relativas.

P2. Se verdades sobre outras mentes são relativas, então esquizofrenia e mitomania não podem ser doenças.

P3. Esquizofrenia e mitomania são doenças.

P4. Portanto, verdades sobre outras mentes não são relativas (de 2 e 3)

Conclusão: Portanto, verdades metafísicas não são relativas.

Avaliemos assim cada premissa do argumento:

Se verdades metafísicas são relativas, então verdades sobre outras mentes também são relativas

Um dos argumentos principais a favor do relativismo metafísico é o de que nós teríamos uma grande verdade de saber a verdade a respeito da realidade. Friedrich Nietzsche disse que o homem, como criador das interpretações de mundo, esqueceu-se que fora o criador delas. Assim, todas as interpretações de mundo (religiosas, mitológicas, etc.) são necessariamente falsas.[1]

Nessa vastidão de cosmovisões, como saber o que de fato o mundo é? Sem o nosso acesso à verdade sobre o mundo, não deveríamos concluir que as ditas verdades metafísicas são relativas? Uma das parábolas para demonstrar essa justificativa ao relativismo, é a famosa parábola do elefante e dos cegos. Veja a versão de John Godfrey Saxe:

Eram seis homens do Hindustão
Inclinados para aprender muito,
Que foram ver o elefante
(Embora todos fossem cegos)
Que cada um por observação,
Poderia satisfazer sua mente.
O Primeiro aproximou-se do Elefante,
E aconteceu de chocar-se
Contra seu amplo e forte lado
Imediatamente começou a gritar:
“Deus me abençoe, mas o Elefante
É “semelhante a um muro”.
O Segundo, pegando na presa,
Gritou, “Oh! O que temos aqui
Tão redondo, liso e pontiagudo?
Para mim isto é muito claro
Esta maravilha de Elefante
é muito semelhante a uma lança!”
O Terceiro aproximou-se do animal
E aconteceu de pegar
A sinuosa tromba com suas mãos.
Assim, falou em voz alta:
“Vejo”, disse ele  “o Elefante
É muito parecido com uma cobra!”
O Quarto esticou a mão, ansioso
E apalpou em torno do joelho.
“Com o que este maravilhoso animal
Se parece é muito fácil”, disse ele:
“Está bem claro que o Elefante
É muito semelhante a uma árvore!”
O Quinto, por acaso, tocou a orelha,
E disse: “Até um cego
Pode dizer com o que ele se parece:
Negue quem puder,
Esta maravilha de Elefante
É muito parecido com um leque!”
O Sexto, mal havia começado
A apalpar o animal,
Pegou na calda que balançava
E veio ao seu alcance.
“Vejo”, disse ele, “o Elefante
é muito semelhante a uma corda!”
E assim esses homens do Hindustão
Discutiram por muito tempo,
Cada um com sua opinião,
Excessivamente rígida e forte.
Embora cada um estivesse, em parte, certo,
Todos estavam errados![2]

Diversos problemas poderiam ser apresentados nessa parábola [3]. Mas foquemos no propósito da parábola: os cegos não tinham como saber a verdade sobre o elefante, por isso davam suas interpretações sobre o que percebiam dele. Do mesmo modo, argumenta o relativista, nós não temos como saber a verdade sobre a realidade, por isso damos nossa interpretação do que percebemos. Assim, como disse Nietzsche, não falamos a verdade objetiva do mundo, mas sim nossas interpretações. Isso cai na grande questão metafísica: o que é a realidade? O que é o mundo? Qual é a verdade sobre o mundo? Sem acesso direto a toda verdade da realidade, argumenta o relativista, estamos apenas com nossas interpretações, sendo todas elas “válidas”, porém, necessariamente falsas.

Falando a respeito de intenções na linguagem e a manifestação de sensações, o filósofo Ludwig Wittgenstein apontou a dificuldade de se estabelecer o conhecimento com relação a outras mentes:

Como as palavras se referem a sensações? Nisto não parece haver nenhum problema; pois não falamos diariamente de sensações e não as denominamos? Mas como é estabelecida a ligação entre o nome e o denominado? A questão é a mesma que: como um homem aprende o significado dos nomes de sensações? Por exemplo, da palavra “dor”. […] Como posso, pois, querer colocar ainda a linguagem entre a manifestação da dor e a dor? Em que medida minhas sensações são privadas? — Ora, apenas eu posso saber se realmente tenho dores; o outro pode apenas supor isto. — De certo modo, isto é falso, de outro, absurdo. Quando usamos a palavra “saber”, como normalmente é usada […], então os outros frequentemente sabem quando tenho dores — Sim, mas não com a certeza com que eu próprio sei![4]

Em outras palavras, nosso acesso às sensações de outras pessoas é extremamente limitado. Como podemos, portanto, acreditar na existência objetiva das mentes de pessoas com que nos relacionamos e seus estados mentais? Nós não temos acesso direto a essas mentes, e nós podemos no máximo interpretar o que se passa na mente de outras pessoas. Como Alvin Plantinga colocou, “nós não podemos vir a saber que o outro está sentindo dor da mesma maneira que nós podemos aprender que ele tem cabelo vermelho; diferente do cabelo, sua dor não pode ser percebida”.[5]

Mas com tudo isso, uma pergunta inevitável aparece: se nós estamos justificados em crer que a verdade sobre o mundo é relativa, dada a nossa limitação de conhecimento do mundo todo, então não estaríamos nós também justificados em crer que a verdade sobre outras mentes é relativa, dada a nossa limitação de conhecimento a respeito das outras mentes e seus estados mentais?

Se verdades sobre outras mentes são relativas, então esquizofrenia e mitomania não podem ser consideradas como doenças.

O que são essas doenças? Ora, elas falam apenas de como pessoas enxergam o mundo, não por correspondência, mas por fortes neuroses na sua cabeça. Os principais sintomas da esquizofrenia são: delírios, pensamentos confusos e alucinações[6], afetando até mesmo as crenças das pessoas[7]. Rachel Miller e Susan Mason especificamente dizem que, dentre esses sintomas os delírios “são crenças que não são verdade”.[8] Elas falam de modo específico sobre vários tipos de alucinações:

Existem diversos tipos diferentes de delírios. Se você crê que as pessoas estão tentando te machucar mesmo esse não sendo o caso, então você está sofrendo de um delírio paranoico. Essa pode ser uma experiência terrível porque ela parece muito real. Delírios de referências ocorrem quando as coisas no ambiente parecem estar diretamente relacionadas a você, mesmo quando não estão. Por exemplo, pode parecer que as pessoas estão falando sobre você ou que mensagens pessoais especiais estão sendo comunicadas a você através da TV, rádio ou outra mídia. Delírios somáticos são crenças erradas sobre o seu corpo, por exemplo, que uma doença física terrível existe, ou que algo está dentro de você passando pelo seu corpo. Delírios de grandeza ocorrem quando você crê que você é muito especial ou que tem poderes e habilidades especiais. Um exemplo de um delírio grande é pensar que você é uma estrela do rock famosa.[9]

Além desses tipos de delírio, também existem as alucinações nas quais se ouve, vê, cheira ou sente algo que não está ali [10].

Aqui vai a importância de todas essas características para o argumento: se a verdade é relativa de acordo com indivíduos, então esses indivíduos com esquizofrenia não podem, de modo nenhum, ser chamados de doentes, pelo simples motivo de que os delírios, alucinações e sentimentos ruins fazem parte da interpretação de mundo deles.

O esquizofrênico interpreta o mundo de uma forma que suas alucinações, vozes, sentimentos e crenças fazem parte da forma como ele enxerga o mundo. Assim, essa é a “verdade dele”. Portanto, se a verdade for relativa, então todo o mundo fantasioso do esquizofrênico é apenas uma verdade, uma “interpretação da vida”.

Esquizofrenia e mitomania são doenças

Ninguém em sã consciência diz que os esquizofrênicos vivem apenas “sua verdade”, mas que eles vivem numa fantasia constante justamente por não haver correspondência com o assegurador de verdade. Assim, esquizofrenia e doenças similares devem ser chamadas de doenças e distúrbios.

Agora, alguém pode morder a isca e dizer que a esquizofrenia não é uma doença, e que esses sentimentos e crenças são apenas as verdades mentais de um indivíduo. Contudo, se formos relativizar as verdades mentais de alguém, cairemos em um problema de regressão infinita. Pense nisso por um instante: se as “verdades mentais” de alguém (incluindo suas crenças) são relativas, então a crença sobre as crenças de outras pessoas também é relativa. Como John Searle argumenta, se A é verdade de acordo com o ponto de vista X, então “A é verdade de acordo com o ponto de vista de X” é verdade de acordo com o ponto de vista de Z, de modo que “’A é verdade de acordo com o ponto de vista de X’ é verdade de acordo com o ponto de vista de Z” é verdade de acordo com o ponto de vista de Y, e assim por diante.[11]

Portanto, verdades sobre outras mentes não são relativas

Se a esquizofrenia é uma doença, então nós devemos admitir que as verdades sobre outras mentes não são relativas, pois, se fossem, não poderíamos classificar essa e outras complicações mentais como doenças psicológicas. Assim, já que podemos, devemos, então, concluir que as verdades sobre outras mentes não são relativas.

Conclusão: Verdades metafísicas não são relativas

Quando combinados o problema do relativismo ao problema das outras mentes, nós temos um argumento duplamente satisfatório contra o relativismo: o esquizofrênico interpreta o mundo de um modo fantasioso, mas eu qualifico isso como doença de acordo com a minha interpretação de mundo. Contudo, se eu não pressuponho algo maior, um panorama que mede as afirmações verdadeiras e falsas, então eu não posso qualificar a esquizofrenia como doença. Dito de outro modo, se essa afirmação particular (“esquizofrenia é uma doença”) não for levada a julgamento por padrões universais (o mundo real), então ela não pode ser dita como verdadeira ou falsa. Mas, isso seria um reductio ad absurdum do relativismo e teríamos que parar com qualquer estudo sério de psicologia e psicanálise.

Refletindo sobre o argumento a favor do relativismo da verdade do mundo de que a verdade é relativa por causa de nossa inacessibilidade à verdade, como as verdades sobre outras mentes são igualmente difíceis de se definir, podemos, portanto, concluir que nós não devemos descartar a existência de verdades metafísicas absolutas (ex.: a existência de Deus, da alma e leis lógicas) por sua dificuldade empírica. Antes, devemos busca-las, já que esse é o trabalho de todo o filósofo e de qualquer sincero buscador da verdade.


Referências

[1] CILENTO, Angela Zamora. “A metafísica de artista enquanto concepção estética do mundo”, Revista Primus Vitam, São Paulo, Nº 4, 2012, p. 1.

[2] Dharmalog, O que é a realidade: a parábola dos Cegos e o Elefante, por John Godfrey Saxe, disponível em https://dharmalog.com/2016/01/19/realidade-parabola-cegos-elefante-mahavira-john-godfrey-saxe/, acesso 12/05/2019.

[3] Como, por exemplo, o fato do narrador saber a verdade sobre o elefante ser, de fato, um elefante. Análogo ao relativista, o narrador sabe afirma saber a verdade. Similarmente, o relativista afirma que a verdade sobre a realidade é que não podemos saber a verdade sobre a realidade.

[4] Ludwig Wittgenstein, Investigações filosóficas, São Paulo: Editora Nova Cultura, 1999, p. 98-99.

[5] Alvin Plantinga, God and other minds, Londres: Cornell University Press, 1967, p. 188.

[6] Rachel Miller; Susan E. Mason. Diagnosis: schizophrenia: A comprehensive resource for patients, families, and helping professionals, Nova Iorque: Columbia University Press, 2002, p. 35.

[7] Ibid. p. 38.

[8] Ibid.

[9] Ibid.

[10] Ibid.

[11] John Searle. The Refutation of Relativism, 2001, disponível em http://www.u.arizona.edu/~aversa/refutationofrelativism.pdf, acesso 26/07/2018.


Felipe Forti
Felipe Forti

Formado em Design Gráfico pela FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas e em Teatro pelo Teatro Escola Macunaíma. Atualmente cursa Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie e Dublagem na Dubrasil - Central da Dublagem. Pretendo fazer Teologia assim que possível. Sou apaixonado por Apologética Cristã e entendo que devo estar sempre preparado para fazer uma defesa a qualquer um que me pedir a razão da esperança que há em mim. (1 Pedro 3:15) Sou autor dos livros A Verdade que existe: Amando a Deus com todo o intelecto e A Gênese em Gênesis: Uma Refutação Bíblica do Criacionismo de Terra Jovem. Ambos podem ser comprados no site do Clube de Autores.

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