No meu último texto, falei sobre os pilares do ateísmo e sua influencia tanto no pensamento filosófico relacionado a Deus quando em sua influencia no pensamento teológico. Hoje, falaremos sobre como a grande revolução da filosofia cristã impactou essas teses, trazendo de volta as discussões relacionadas a Deus à filosofia. O grande impacto dos filósofos analíticos da religião em suas refutações das teses epistemológicas naturalistas e novas defesas dos argumentos a favor da existência de Deus é visível para quem lê as obras relacionadas à essa área que foram escritas recentemente.

Uma Crítica aos Pilares do Ateísmo

Tendo explicado o que chamei de “pilares do ateísmo”, como o cristão deve responder a esses posicionamentos? Não há o que temer. Apesar da predominância desses princípios até a década de 1950, a filosofia analítica da religião conquistou seu espaço com o ressurgimento de estudos relacionados à racionalidade da fé cristã e aos argumentos clássicos da teologia natural, juntos às críticas sofisticadas aos princípios do ateísmo.

Crítica ao Verificacionismo

Talvez o mais popular dos princípios citados seja o verificacionismo. Lembre-se: o verificacionismo é uma tese epistemológica que diz que proposições que não podem ser verificadas empiricamente não fazem sentido. Mas a que consequências isso nos levaria?

Se o verificacionismo fosse válido, teríamos que descartar uma gama de conhecimento humano. Julgamentos éticos, por exemplo, não fazem sentido para os verificacionistas. Mas isso nos levaria a dizer que proposições como “torturar pequenos bebês por diversão é errado” ou “não se deve impor sua religião nas pessoas” não fazem sentido, pois são proposições relacionadas à ética e à moral. Além disso, uma grande quantidade de conhecimento e teorias cientificas teria de ser descartada. Conceitos como horizonte de eventos, conjunto de mundos, entre outros, não podem ser empiricamente verificados. Essas são postulações metafísicas para favorecer teorias cientificas a partir de algum dado coletado. Mas isso não implica que sejam conceitos sem sentido.

Mas esses problemas não chegam nem perto do problema central do verificacionismo. O que levou um grande número de filósofos a abandonar o princípio da verificação não foi apenas a necessidade de se abandonar julgamentos éticos e conhecimento cientifico. O principal fator para o reconhecimento da falha do verificacionismo foi sua auto-refutação. Afinal de contas, pode a proposição “uma proposição só faz sentido se for verificada empiricamente” ser verificada empiricamente? Claramente que não. Desse modo, o verificacionismo não parece uma tese tão forte quanto se imaginava.

Crítica ao Cientificismo

De forma similar, o cientificismo nos levaria a um abandono muito maior da realidade. O filósofo ateu Alex Rosemberg em seu livro An Atheist Guide to Reality [Um guia ateísta para a realidade] é bem claro nas implicações de seu cientificismo. De acordo com Rosemberg, se pressupormos o cientificismo, devemos descartar o conceito de “eu”, a intencionalidade da mente (o “pensar sobre algo”, já que objetos físicos não possuem essa propriedade), julgamentos morais, entre outros.

Claramente, se descartarmos o “eu” isso significa que eu não existo. Do mesmo modo, descartando a intencionalidade, devemos concluir que não pensamos sobre nada. Julgamentos morais não podem ser testados cientificamente, pois a ciência trata do que é, não do que deveria ser. Ou seja, esses julgamentos são meramente ilusórios para o cientificista. Mas essas conclusões são absurdas. Se eu não existo, como posso estar escrevendo esse texto? E se eu não posso pensar sobre nada, como posso estar pensando sobre o que Rosemberg escreveu? Além disso, como posso aceitar as conclusões de Rosemberg sabendo que torturar pequenos bebês por diversão é obviamente algo moralmente errado?

Ainda há mais. No debate entre William Lane Craig e Peter Atkins, quando Craig foi questionado por Atkins se ele duvidava da onipotência da ciência, Craig corretamente lista cinco coisas que a ciência não pode provas, mas ainda são racionais de se acreditar. Verdades lógicas e matemáticas não podem ser provadas cientificamente, pois a ciência pressupõe a lógica e a matemática. E quanto aos julgamentos éticos e estéticos? O belo, assim como o bom, não pode ser provado pela ciência. Verdades metafísicas não podem ser cientificamente provadas também. Por exemplo, “existem mentes além da minha”, “o mundo externo é real” ou “o passado não foi criado à cinco minutos com aparência de ser antigo” são crenças racionais, mas não podem ser provadas cientificamente [1].

Mas ainda assim, o cientificismo também é auto-contraditório. A proposição “só devemos crer no que for cientificamente provado” não pode ser cientificamente provada. Trata-se de um princípio tão frágil quanto o verificacionismo.

Crítica ao Criticismo

A ideia de Kant pode parecer mais óbvia após entendê-la, mas parece que ele falhou na parte de dizer que não temos acesso ao mundo real. Lembre-se, Kant afirmou que devemos ter o acesso ao empírico para racionalizarmos sobre o que foi experimentado. Porém, isso não significa que essa seja a única forma de conhecimento. A ideia de que não temos acesso ao mundo real, apenas ao fenômeno, nos leva a questionamentos graves com relação à filosofia de Kant. Por exemplo, se não temos acesso ao mundo real, como Kant sabe que o fenômeno provém do mundo real? Se o fenômeno é uma barreira entre o homem e o mundo real, como se pode saber se o mundo real ao menos existe? Sabemos que a causalidade se aplica ao mundo real, assim como sabemos que os outros princípios da lógica se aplicam a ele. Se a proposição “o mundo real não pode ser conhecido” for verdadeira sobre o mundo real, então seu oposto é falso. Mas esse é o princípio da não-contradição sendo aplicado. Sendo mais direto: Kant diz que a verdade sobre o mundo real é que não se pode saber a verdade sobre o mundo real.

Uma forma mais correta de se entender o fenômeno é como algo que liga uma pessoa ao mundo real, permitindo o conhecimento dele. Mas é incorreto afirmar que existe essa barreira fenomenal no caminho.

Por fim, podemos dizer que a criticismo também é auto-refutável. Como pode alguém saber que o mundo real existe e que ele é incognoscível sem acesso ao mundo real? É uma demonstração da falácia do nothing-buttery (“nada mais”). Para se saber que não há como conhecer nada mais do que o fenômeno, deve-se saber mais que o fenômeno.

O que dizer das antinomias de Kant?

Lembre-se que Kant trouxe mais um problema para a teologia natural: As contradições metafísicas quando se tenta provar Deus pela razão. A primeira antinomia de Kant tem relação com o argumento cosmológico. Kant corretamente demonstra que uma série de eventos temporais não pode ser eterna no passado, pois, se fosse, o hoje jamais chegaria. Porém, ele propõe uma antítese para demonstrar que o uso da razão para uma primeira causa leva a uma contradição. Essa antítese diz que, se o tempo teve um início, então deve ter tido um tempo vazio antes do início do tempo. Nesse tempo vazio não há distinção entre um momento e o outro. Sendo assim, as condições de todos os momentos são as mesmas, de modo que nenhum momento poderia favorecer o início do universo. Já que em todos esses momentos de tempo vazio as condições são as mesmas, então nada poderia causar o universo em um momento ou em outro.

Essa antítese de Kant parece, na verdade, bem falaciosa. Mas antes, tenha em mente uma coisa: Alguém que use essa antítese para dizer que Kant eliminou a metafísica está extremamente atrasado nos conhecimentos científicos. Lembre-se que Kant viveu em uma época onde se havia uma noção Newtoniana de tempo. Ou seja, o tempo era absoluto, podendo existir independente da matéria. Em uma visão de tempo relativo, como a de Einstein, o tempo começaria a existir em determinado ponto, onde não há tempo anterior.

Pensando bem, parece estranho sugerir que há tempo antes do tempo para que o tempo comece. Não seria mais lógico dizer que o tempo começou a existir em um momento t, o qual nenhum tempo precedia t? Um Deus atemporal certamente poderia causar o universo e o tempo.

Mas mais importante do que isso, é que a antítese de Kant, na verdade, fortalece o argumento. Como William Lane Craig explica [2], em uma visão de tempo absoluto Newtoniano, onde poderia haver esse tempo vazio antes do universo, como cada momento de tempo igualmente possui as mesmas condições, como é que algum desses momentos poderia ser responsável pela origem do universo? A única solução é se algum ser Pessoal puder escolher quando criar o universo. Similarmente, uma causa atemporal existindo permanentemente antes da origem do tempo também teria que ter a habilidade de escolher criar o universo. Assim como um homem sentado pela eternidade pode escolher quando se levantar, uma causa existente permanentemente com as condições suficientes para criar um efeito temporal tem que ser capaz de escolher criar o universo. Então, seja em tempo Newtoniano ou relativo, o argumento cosmológico nos leva à uma causa atemporal e pessoal, que são características de Deus. Não há contradição alguma aqui e, sendo assim, o argumento cosmológico, pela razão pura, ainda tem sucesso.

Crítica ao Relativismo

Talvez a mais popular das ideias citadas aqui seja o relativismo. O relativismo propõe que a verdade é relativa à cultura ou ao individuo. Em geral, se crê que a verdade é relativa à perspectiva de uma cultura. O relativista, em geral, se concentra em apenas um argumento:

Premissa 1 — Aquilo que se crê ser verdade vária de cultura para cultura e de época para época.
Premissa 2 — Aquilo que é verdade depende do que se crê ser verdade.
Conclusão — Portanto, aquilo que é verdade vária de cultura para cultura e de época para época.

Mas o que temos aqui? Parece que o relativista não vê a falha em sua lógica. Qual a justificativa para a aceitação da premissa 2? Parece que só se aceita essa premissa quem já aceita a conclusão. Se esse é o caso, então o argumento é uma petição de princípio, pois pressupõe sua conclusão na premissa.

Além disso, as principais conclusões do relativismo também se mostram auto-refutáveis. Considere as seguintes proposições:

— A verdade é relativa.
— Não existem verdades absolutas.
— O que é verdade para você não é verdade para mim.

Todas elas, quando aplicadas a si mesmas, refutam a si mesmas:

— “A verdade é relativa” é uma verdade relativa?
— “Não existem verdades absolutas” é uma verdade absoluta?
— “O que é verdade para você não é verdade para mim” é uma verdade para todos?

Me parece que a única saída para esse problema é reformulando a proposição “a verdade é relativa” para “o relativismo é verdade”. Desse modo, “verdade” torna-se uma propriedade do relativismo, e não o “relativismo” uma propriedade da verdade.

Mas isso soluciona algo? Parece que essa reformulação não resolve o problema. Eu argumentaria que é logicamente impossível a proposição “o relativismo é verdade” estar correta. Analisando o conceito de “relativismo”, ele propõe que as verdades sejam, em si, relativas. Mas se esse for o caso, então a proposição “o relativismo é verdade” deve significar, necessariamente, que “o relativismo é uma verdade relativa”. Se esse é o caso, então essa proposição é apenas mais um truque do relativismo, desprovido de valor absoluto e sem motivo algum para ser favorecida.

O perspectivismo sofre da mesma auto-contradição. Se estamos presos em nossas perspectivas culturais sem a possibilidade de avaliar objetivamente a realidade ou de nos comunicar, como o perspectivista pode estar fazendo uma afirmação objetiva sobre todas as culturas e perspectivas? Da mesma maneira que o criticismo, aqui também se comete a falácia do nada mais. O perspectivista está dizendo que não se pode saber nada mais que a perspectiva, ao passo que fala algo mais do que sua perspectiva.

Quando Nietzsche diz que todas as interpretações de mundo são falsas, porém válidas, como ele pensa estar certo, e não afirmando apenas outra interpretação do mundo? A cosmovisão que diz que todas as cosmovisões são apenas interpretações falsas, porém válidas, não é ela também uma interpretação falsa, porém válida?

Mas a verdade é que verdades absolutas existem. Se considerarmos, por exemplo, os princípios da lógica, então vemos que é impossível relativizá-los. De fato, se alguém tentar relativizá-los ele estará usando-os. Se for dito “os princípios da lógica são verdades relativas”, então se pressupõe que seu oposto seja falso, o que é o princípio da não-contradição.

Em suma, o relativismo torna-se mais uma posição frágil daqueles que proclamam a “morte de Deus” na filosofia. Junto ao verificacionismo, cientificismo e ao criticismo, o relativismo é apenas mais um mal entendido sobre como a realidade funciona.

Crítica à Teologia Criticista

E o que podemos dizer daqueles teólogos que dizem que Deus não pode nem ao menos ser pensado, pois está muito além do nosso mundo? Considere o seguinte: Para se falar que Deus não pode ser pensado, deve-se pensar sobre Deus não poder ser pensado. Como Alvin Plantinga apontou, se não podemos pensar sobre Deus, então não podemos pensar a respeito dele, sendo assim, não podemos fazer asserções sobre ele, o que inclui as asserções sobre a impossibilidade de pensar a respeito dele [3]. Desse modo, essa posição também é auto-contraditória.

Além disso, aqueles que crêem que não podemos saber nada sobre Deus que não tenha sido revelado nas Escrituras se encontra em direta contradição com elas. O apóstolo Paulo diz que “desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas” (Romanos 1:20). No Antigo Testamento, Davi diz: “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos” (Salmos 19:1).

A Ressurreição de Deus

Com o trabalho de Alvin Plantinga e outros filósofos cristãos, não só os pilares do ateísmo foram derrubados, como também apareceram versões sofisticadas dos argumentos para a existência de Deus. Plantinga ressuscitou o antigo Argumento Ontológico. William Lane Craig se tornou o maior defensor do Argumento Cosmológico Kalam. Alexander Pruss desenvolveu uma boa defesa do Argumento da Contingência de Leibniz. Entre vários outros filósofos que se especializaram na defesa dos argumentos da Teologia Natural no meio da filosofia analítica da religião. O filosofo ateu Quentin Smith admite:

(…) em filosofia, argumentar a favor do teísmo tornou-se, quase que na calada da noite, “academicamente respeitável”, tornando a filosofia um lugar favorável para a entrada, no mundo acadêmico, dos mais inteligentes e talentosos teístas da atualidade. Deus não está “morto” na academia; ele voltou à vida no final dos anos 60 e continua vivo e bem em sua última fortaleza acadêmica: os departamentos de filosofia [4].

Crenças Apropriadamente Básicas e a Epistemologia Reformada

Plantinga também desenvolveu o conceito de crença apropriadamente básica, que parte da ideia da racionalidade da crença em Deus, mesmo se não houvesse qualquer argumento ou evidência. Para exemplificar, considere a crença no mundo externo. Você crê que o mundo externo é real e possui uma garantia para isso. Não há qualquer anulador para fazer com que você duvide dele. Essa é uma crença apropriadamente básica. Do mesmo modo, um cristão que possui uma experiência pessoal possui uma crença de que é verdade que Deus existe e possui uma garantia — a sua experiência pessoal — para isso. Isso torna sua crença em alguma coisa como racional também.

Alguém poderia dizer que os muçulmanos também possuem sue experiência pessoal e creem estar na religião verdadeira. Porém, isso nada afeta a epistemologia de Plantinga. O que Plantinga argumenta é que uma crença verdadeira garantida é uma crença racional até que se ache um anulador para essa crença. Porém, não há nenhum bom anulador para a crença cristã.

Ciência e a Teologia Natural

As descobertas do século XX na área científica também influenciaram a Teologia Natural e seu estudo na filosofia analítica da religião. Em particular, as evidências de que o universo teve um início com o Big Bang e o ajuste fino do universo foram impactantes para as discussões do Argumento Cosmológico e do Argumento Teleológico, respectivamente.

A origem do universo teve um impacto no tradicional Argumento Cosmológico Kalam, que normalmente segue a seguinte formulação:

Premissa 1 – Tudo o que começa a existir tem uma causa.
Premissa 2 – O universo começou a existir.
Conclusão – Portanto, o universo teve uma causa.

Depois disso, usa-se a lógica para ver quais propriedades essa causa possui, chegando à conclusão de que a melhor explicação para a origem do universo é Deus.

O mesmo acontece para o argumento teleológico, que possui a formulação a seguir:

Premissa 1 – O ajuste fino do universo se deve à necessidade física, ao acaso ou ao design.
Premissa 2 – Não é por necessidade física ou por acaso.
Conclusão – Portanto, é por design.

Não há espaço aqui para fazer uma defesa de ambos os argumentos. Porém, em ambos os casos, nota-se que as evidências cientificas estão sendo usadas em suporte de uma premissa em um argumento filosófico que leva à uma conclusão de significância teológica.

Conclusão

O início do século XX foi um período de propagação do naturalismo e do secularismo. Deus estava “morto” nas discussões acadêmicas. Mas a revolução na filosofia cristã trouxe à tona uma crítica sofisticada dos pilares do ateísmo e uma defesa intelectual do teísmo. Deus ressurgiu no meio acadêmico, e Ele ficará por aqui por um bom tempo.


Referências

[1] Site do Reasonable Faith, What is the evidence for/against the existence of God?, disponível em <https://www.reasonablefaith.org/media/debates/what-is-the-evidence-for-against-the-existence-of-god/>; acesso em 19/fev/2018.

[2] William Lane Craig, The kãlam cosmological argument, The Macmillan Press, 1979, p. 150-151.

[3] Alvin Plantinga, Conhecimento e Crença Cristã, Brasília, DF: Academia Monergista, 2016, p. 43.

[4] Quentin Smith, “The Metaphilosophy of Naturalism”, Philo, vol. 4/2, 2001.


Felipe Forti
Felipe Forti

Formado em Design Gráfico pela FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas e em Teatro pelo Teatro Escola Macunaíma. Atualmente cursa Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie e Dublagem na Dubrasil - Central da Dublagem. Pretendo fazer Teologia assim que possível. Sou apaixonado por Apologética Cristã e entendo que devo estar sempre preparado para fazer uma defesa a qualquer um que me pedir a razão da esperança que há em mim. (1 Pedro 3:15) Sou autor dos livros A Verdade que existe: Amando a Deus com todo o intelecto e A Gênese em Gênesis: Uma Refutação Bíblica do Criacionismo de Terra Jovem. Ambos podem ser comprados no site do Clube de Autores.

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