Usando erroneamente a famosa frase de Friedrich Nietzsche, muitos dos que se assentam nas suas “poltronas do saber” gostam de repetir o mantra: “Deus está morto”. Deus está fora de qualquer discussão filosófica ou intelectual, sendo apenas um objeto de fé. Se é que ele existe, é claro. Para os adeptos disso, Deus, e em geral toda a metafísica, foram tirados do campo das discussões lógicas. Similar ao pensamento dos neo-ateus, eles pensam que quem se dedica a questões filosóficas deve necessariamente crer que “Deus está morto” e que ele é um mero artigo de fé, e nada mais. O teísmo não teria significado dentro desse quadro.

Essa será a primeira parte de um conjunto de dois textos. O primeiro fala apenas dos pilares do ateísmo, enquanto o segundo tratará de suas refutações e da ressurreição do teísmo na filosofia.

Os Pilares do Ateísmo e a Ressurreição do Teísmo no Século XX

O fato mais marcante da filosofia ateísta é que ela se baseia muito no que é chamado de agnosticismo. O ateísmo propõe a crença na inexistência de Deus. Já o agnosticismo é a posição de alguém que se declara sem conhecimento para fazer qualquer julgamento sobre existência de Deus.

Quando digo que o ateísmo do início do século passado se baseava em princípios agnósticos — e, para ser bem franco, o neo-ateísmo também —, quero dizer que estou falando dos seguintes princípios:

criticismo, cientificismo e verificacionismo. Talvez o único “pilar” do ateísmo que eu possa chamar de ateísta seja o relativismo. Mas vejamos o que cada um desses termos significa enquanto eu explico por que penso assim.

Criticismo

Antes de falarmos do criticismo, vejamos um pouco do empirismo e do racionalismo. O empirismo é uma posição que propõe que o nosso conhecimento vem apenas no que pode ser empiricamente confirmado. Para que algo seja declarado como verdade deve ser possível confirmar isso pelos cinco sentidos. O empirismo encontra-se em oposição ao racionalismo, que diz que podemos saber a verdade através da razão. O importante de sabermos sobre essas duas teorias é que muitos anos depois do surgimento delas, Immanuel Kant propôs uma síntese de ambas.

O impacto de Kant na Teologia Natural

Para Kant, nosso conhecimento vem de uma experiência empírica, porém a razão é indispensável para “decifrar” o que está sendo experimentado. O que torna esse princípio de Kant um ponto favorável ao agnosticismo é que ele propõe a necessidade do empírico para se absorver conhecimento, junto à razão.

Mas há outra consequência dessa ideia. Do modo como experimentamos o mundo, nessa interação entre o empírico e a razão imediata, então não teríamos acesso ao mundo real, mas apenas àquilo que experimentamos. Em outras palavras, temos acesso a um fenômeno, causado pelo mundo real e nossa experiência com ele.

Além desses pontos, Kant fez uma crítica aos argumentos teístas clássicos. Ele tentou demonstrar que, se usássemos a razão para conhecer aquilo que faz parte do campo da metafísica, entraríamos em contradições. Como exemplo disso, ele diz que a origem do tempo não poderia ser uma questão apenas da razão. Assim, apesar de podermos demonstrar pela razão que o tempo teve um início com o argumento da impossibilidade da regressão infinita do tempo, teríamos que dizer que a origem do tempo se deve à uma causa que existia antes do tempo. Mas como pode haver algo “antes” do tempo, se o conceito de “antes” requer o tempo? A crítica de Kant cai nisso: se o tempo teve uma origem, deve haver algum tempo antes do tempo. Ele diz:

Como o começo é uma existência precedida de um tempo em que a coisa não é, tem que ter decorrido previamente um tempo em que o mundo não era, ou seja, um tempo vazio. Ora, num tempo vazio não é possível o nascimento de qualquer coisa, porque nenhuma parte de um tal tempo tem em si, de preferência a outra, qualquer condição que distinga a existência e a faça prevalecer sobre a não existência (quer se admita que essa condição surja por si mesma ou através de uma outra causa). Podem, por consegui mundo não pode ter começo e é, pois infinito em relação ao tempo passado [1].

Com o criticismo de Kant e as contradições metafísicas propostas por ele, muitos creem que Kant deu o primeiro “xeque-mate” na metafísica.

O importante a se notar é que as críticas de Kant não são propostas ateístas. Na verdade, elas postulam apenas um agnosticismo, por ver a necessidade do empírico ao conhecimento. Além disso, mesmo com as contradições metafísicas propostas, o máximo que concluímos é que os argumentos em si seriam contraditórios. A conclusão de que Deus não exista ainda não se seguiria.

Teólogos que apoiam Kant

Pode parecer uma surpresa, mas muitos teólogos se veem seduzidos pela ideia de Kant. Como não podemos saber nada sobre o mundo real, e nossa razão se contradiz quando tentamos conhecer algo sobre Deus, então isso nos mostraria o quão grandioso Deus é. Para esses teólogos, Deus é um mistério, inexplicável, de modo que, fora da revelação nas Escrituras, não se pode saber nada sobre Deus.

Simplificando, se o mundo real já é inacessível à nós, quão mais inacessível é a realidade em que Deus se encontra? Deus está tão tão além de nós, que nós não podemos nem ao menos pensar sobre ele. Como diz a famosa música, “ninguém explica Deus”.

Cientificismo

O cientificismo é uma tese epistemológica que pode ser resumida assim: Aquilo que é verdade deve ser provado pelo método cientifico. Em outras palavras, para os cientificistas, a ciência é a única fonte de conhecimento. Nós não deveríamos crer em nada que não pudesse ser cientificamente provado.

Podem parecer obvias as fragilidades dessa tese, mas antes de criticá-la, é importante notar a dominância dela no pensamento dos novos ateus. Isso fica óbvio quando nos deparamos com o pensamento de Peter Atkins, por exemplo. Em seu debate com William Lane Craig, Atkins foi bem claro quanto ao seu desprezo pela filosofia e sua posição cientificista. Ele chegou a questionar até mesmo se Craig acreditava ou não que a ciência era onipotente.

Com o mesmo pensamento, Stephen Hawking na abertura de seu livro The Grand Design [O Grande Projeto] declara:

Como nós podemos entender o mundo em que nos encontramos? Como o universo se comporta? Qual é a natureza da realidade? De onde tudo isso veio? O universo precisa de um criador? […] Tradicionalmente essas são questões para a filosofia, mas a filosofia está morta. A filosofia não conseguiu acompanhar o desenvolvimento moderno da ciência, particularmente da física. Os cientistas se tornaram aqueles que carregam a tocha do descobrimento em nossa busca pelo conhecimento [2].

Como Deus não pode ser provado pela ciência, as implicações do pensamento cientificista se tornam evidentes: Deus não pode fazer parte do conhecimento. Aquele que se diz um entusiasta da ciência deve descartar Deus.

Mas, novamente, vemos aqui um princípio que não prova o ateísmo. O cientificismo, na melhor das hipóteses nos tornaria agnósticos quanto à existência de Deus, pois não poderíamos prova-lo cientificamente.

Verificacionismo

Podemos resumir o verificacionismo como uma tese do conhecimento que diz: Para uma proposição ter sentido, ela deve poder ser verificada pelos cinco sentidos. Em outras palavras, uma proposição só faz sentido se ela for empiricamente verificável. Ou seja, Deus, ética, estética dentre outras coisas estão de fora do conhecimento humano.

Se esse é o caso, então qualquer proposição que não possa ser verificada não faz sentido. Ou seja, não podemos nem ao menos falar sobre teologia, ética, estética e qualquer coisa que tenha relação com a metafísica.

Mesmo sendo um dos fundamentos do naturalismo epistemológico, o verificacionismo se vê impotente para provar a inexistência de Deus. Assim como seus companheiros, o verificacionismo está na área daquilo que justifica o agnosticismo.

Teólogos que apóiam o Verificacionismo

Por mais estranho que seja, não só alguns teólogos adotam o criticismo de Kant, mas também o verificacionismo. Convencidos de que proposições teológicas não podem fazer sentido, esses teólogos adotam uma visão mais emotiva com relação à verdades teológicas. Como explica William Lane Craig:

Pressionados pelo verificacionismo, alguns teólogos passaram a advogar teorias emocionais da linguagem teológica. Na visão deles, as declarações teológicas não são de modo algum declarações de fato, mas expressam meramente as emoções e atitudes dos declarantes. Por exemplo, a proposição “Deus criou o mundo” não pretende expressar nenhuma declaração factual; antes, é meramente um modo de expressão, digamos, do espanto e do maravilhamento de alguém ante a grandiosidade do universo [3].

Infelizmente, essa teologia deformada levou o conhecimento de Deus e questões teológicas em geral a um abismo. Deus não estava apenas “morto” nas questões primariamente filosóficas, mas também era mera poesia para os teólogos.

A parte ateísta dos três pilares

Esses três pilares podem não provar a inexistência de Deus, mas eles são usados para justificar o ateísmo, de modo que, se não podemos saber nada sobre Deus, então se está justificado em crer que Deus não existe e que a natureza é tudo o que existe. Ou, para citar Carl Sagan, “o cosmos é tudo o que existe, tudo o que existiu e tudo o que existirá”. Proposições como “Deus existe” ou “Deus criou o mundo” não podem ser nem verdadeiras e nem falsas.

Relativismo

Mas esses não são os únicos pilares do ateísmo. Apesar do relativismo não ser popularmente uma visão que pareça ter relação com o ateísmo, ele em si deve pressupor o ateísmo. O relativismo afirma que a verdade é relativa. Em outras palavras, o que é verdade para mim pode não ser verdade para você, e vice-versa. Desse modo, a crença em Deus se torna algo relativo também. É verdade, para o cristão, que Deus existe. Mas, para o ateu, é verdade que Deus não existe.

Desse jeito, o pressuposto ateísta do relativismo se torna mais claro: Se Deus existe para mim, mas não existe na realidade, então qual é a diferença desse pensamento para o ateísta? A existência de Deus torna-se, no relativismo, um mero construto da mente humana, dependente desta. Então, se não houvesse pessoas em todo o universo, Deus não existiria, pois não existe na realidade. Ele é apenas um objeto de fé. Tanto o ateu quanto o cristão estariam certos em suas perspectivas, mas eles estão apenas com suas interpretações da realidade, não com uma ideia da realidade em si.

Apesar de Friedrich Nietzsche não ter sido um ateu, talvez tenha sido o responsável pela propagação do que é chamado de perspectivismo. De acordo com o perspectivismo, toda visão de mundo é apenas uma interpretação da realidade. Ela não é verdadeira, mas é válida. Sendo assim, essas interpretações são necessariamente falsas, pois partem apenas de como uma cultura interpreta a partir de uma perspectiva.

Nitidamente, isso traz mais consequências. Se estamos presos em nossas perspectivas, como podemos avaliar a realidade de forma objetiva? Como podemos avaliar algo se nós temos em nós os pressupostos de uma cultura? E assim, como podemos comunicar à outra cultura aquilo que cremos ser verdade?

Embora muitos relativistas não se vejam ateus e nem propagam sua filosofia como ateísta, fica claro que ela tem consequências ateístas.

Continua…

Vimos até aqui os princípios filosóficos do ateísmo que influenciaram grande parte do pensamento filosófico do século XVIII até a primeira metade do século XX. Mas como esse cenário mudou de la pra cá? No próximo artigo veremos como a grande revolução da filosofia cristã teve um impacto forte no meio acadêmico. Veremos como respostas intelectuais à esses posicionamentos trouxeram de volta a teologia natural à filosofia analítica da religião. Essas respostas vêm acompanhadas de defesas sofisticadas dos argumentos a favor da existência de Deus.


Referências

[1]Immanuel Kant. Crítica da razão pura, 5ª Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, A 427 B 455, p. 418.

[2] Stephen Hawking, Leonard Mlodnow, The Grand Design, New York: Bantam Books, 2010, p. 5 (itálico meu).

[3] Reasonable Faith, A revolução na filosofia anglo-americana, disponível em <https://pt.reasonablefaith.org/artigos/artigos-de-divulgacao/a-revolucaeo-na-filosofia-anglo-americana>; acesso em 19/fev/2018.


Felipe Forti
Felipe Forti

Formado em Design Gráfico pela FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas e em Teatro pelo Teatro Escola Macunaíma. Atualmente cursa Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie e Dublagem na Dubrasil - Central da Dublagem. Pretendo fazer Teologia assim que possível. Sou apaixonado por Apologética Cristã e entendo que devo estar sempre preparado para fazer uma defesa a qualquer um que me pedir a razão da esperança que há em mim. (1 Pedro 3:15) Sou autor dos livros A Verdade que existe: Amando a Deus com todo o intelecto e A Gênese em Gênesis: Uma Refutação Bíblica do Criacionismo de Terra Jovem. Ambos podem ser comprados no site do Clube de Autores.

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