Um dos aspectos mais sutis e difíceis da análise de cosmovisão é saber diferenciar, com algum grau de clareza, entre os elementos culturais e os elementos naturais da cosmovisão. Esta diferenciação é importante demais para ser ignorada na sociedade pluralista em que vivemos.

Natureza e Cultura

Os elementos culturais são aqueles que são construídos pelo homem e suas idiossincrasias, em conjunto com as pressões sociais às quais ele está sujeito localmente. Exemplos mais comuns desses elementos costumam ser moralmente julgados, como “é feio arrotar à mesa”, ou “é bom que todos tenham diploma de ensino superior”, ou também que “o estado precisa garantir saúde e educação para todos”. Estes elementos culturais são claramente contingentes, e portanto, subjetivos à época e à sociedade de sua origem, podendo serem mudados por forças sociais. Neste nível, estão as leis civis, as constituições dos países, e todas essas regras que costumamos discutir se deveriam virar lei ou não, passando a serem “positivadas” pelos governos, entregando-lhes mais poder do que já possuem sobre o indivíduo.

Já os elementos naturais são dados, já vem prontos, eles preexistem ao homem, de modo que todo homem está sujeito a eles em todo lugar, não apenas localmente, mas sim universalmente. Uma parte muito importante desses elementos naturais são o objetivo maior do que hoje chamamos de ciência: leis naturais necessárias que, uma vez atingido certo estado físico-químico, passam a vigorar independente da ação humana, simplesmente pela própria natureza. Exemplos clássicos são a força da gravidade (peso), interações eletromagnéticas, leis de Bernoulli dos fluidos, lei de Snell da ótica clássica, e outras tantas leis científicas que se aprende na escola e na universidade.

Contudo, não é apenas a ciência a responsável pela descoberta desses elementos naturais. Também existe a chamada lei moral natural, ou direito natural, que procura compreender a moralidade intrínseca do ser humano, universal e acessível a todos (“é errado assassinar pessoas”, “é errado não pagar suas dívidas”, “é certo ajudar aos pobres”, etc). A existência desses elementos, inclusive, é um forte indício da existência de Deus, de tal modo que, quando desrespeitados sistematicamente dentro de uma sociedade, fazem os membros dela questionar a própria existência da divindade.

Depois desta longa introdução sobre a análise de cosmovisão, podemos fazer a seguinte pergunta para nós mesmos e também para as outras pessoas, sendo ela a chave para iniciar um diálogo saudável, independentemente de termos ou não concordâncias com elas: Qual é a sua cosmovisão? Quais seriam os elementos culturais dela? E os elementos naturais?

O que isso tem a ver com o Cristianismo?

É completamente possível também fazer essa análise também da cosmovisão cristã. E enquanto cristão, o que percebo é que a cosmovisão cristã seja a mais coerente entre todas as outras opções. Isto parece uma afirmação ousada, mas não: ela é apenas uma constatação depois de uma análise lógica, histórica e também científica a respeito dos elementos dessa cosmovisão. O que é, inclusive, a missão deste ministério: oferecer respostas para os grandes questionamentos segundo a cosmovisão cristã, e de dar boas razões para se crer que é esta a melhor cosmovisão dentre as tantas. E também, é claro, de receber questionamentos advindos de outras cosmovisões a fim de estabelecer parâmetros de comparação entre elas.

Num nível introdutório, a diferenciação entre elementos culturais e naturais é o princípio básico de análise. Sem esta distinção, não será possível comparar o quanto uma cosmovisão é “melhor” do que a outra com a devida proporção. E este exercício, sugiro eu, é muito recomendado para qualquer pessoa cristã que sinta em seu coração o desejo do evangelismo. Afinal de contas, evangelizar significa “anunciar as boas novas” para todos os seres humanos, o que significará também, na prática, lidar com a imensa quantidade de objeções e questionamentos colocados pelas pessoas ao lidar com a mensagem cristã da salvação através de Jesus Cristo. Tais questionamentos, na sua maioria, estarão ancorados em alguma cosmovisão diferente da cristã, o que, para o evangelista, representa um desafio à sua fé. Se o próprio evangelista não estiver seguro de suas convicções, ou não estiver preparado para responder aos questionamentos com amor e com racionalidade, então é possível que o modo com o qual o evangelista será visto pelo questionador não seja dos melhores.

O Exemplo do Apóstolo Paulo

Considere a passagem do apóstolo Paulo pela cidade de Atenas, em Atos 17:16-34. Essa cidade era conhecida por ter mais ídolos do que no restante da Grécia. O escritor romano Petrônio dizia que lá era mais “fácil encontrar um deus do que um homem, pois todo portal ou pórtico tinha um deus protetor”. Petrônio chegou a calcular quantos deuses haviam nas ruas e prédios públicos: cerca de 30 mil. O apóstolo Paulo chegou em Atenas por volta de 50 d.C. Nesse ambiente tão idólatra, era se de se esperar que o apóstolo dos gentios tivesse uma reação que não fosse de revolta. Essa idolatria revelava que a sociedade ateniense possuía uma cosmovisão muito diferente e distante da cosmovisão cristã, e isso sem dúvida representaria uma dificuldade de exposição imediata do evangelho. Parecia haver poucas crenças em comum. Isso ficou claro para Paulo, e é talvez por isso que ele quis discutir na sinagoga com judeus e nas praças públicas com as pessoas que apareciam. E sabemos que Paulo era um profundo conhecedor das Escrituras. Não é atoa que ele soube também fazer a exposição da sua cosmovisão aos atenienses na sua passagem pela cidade, primeiro falando do “Deus que faz tudo o que nele há”, confrontando crenças panteístas e materialistas dessa época. Em seu discurso, Paulo ainda faz referência ao pensamento de “alguns de vossos poetas” (poetas da antiguidade grega), procurando os pontos comuns entre o Cristianismo e os pensadores gregos, em mais uma demonstração de seu conhecimento da cultura e da história gregas da época.

Esse aspecto da vida do apóstolo Paulo é algo que todo cristão, de acordo com seu propósito de vida, precisa imitar. Curiosamente, assim é também com as pessoas que professam outras cosmovisões alternativas ao Cristianismo. Se um cristão questiona um ateu, por exemplo, e o ateu também não dá boas razões (ou entra em contradição) para justificar seu ateísmo, então o ateísmo foi colocado em cheque. Contudo, segundo o Cristianismo, Deus existe. Ateísmo e Cristianismo, logo na raiz do debate, são incompatíveis. Como fazemos para debater a questão da existência de Deus neste caso? A análise das cosmovisões é um belo ponto inicial do debate.


Em breve, continuarei a fazer outras reflexões sobre a análise de cosmovisões e sua importância dentro da sociedade tão pluralista como a que vivemos.


Saulo Reis
Saulo Reis

Diretor do Acrópole da Fé Cristã e mestrando em Matemática pela Unifesp. Engenheiro de Computação por profissão; professor de Matemática por paixão; Teólogo por amor a Deus.

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