Este debate, nomeado Is God a Delusion?, aconteceu no dia 25 de outubro de 2011 no Sheldonian Theater em Oxford, trouxe dois famosos pensadores para para debaterem sobre a existência de Deus, William Lane Craig e Richard Dawkins. No entanto, Dawkins acabou não comparecendo ao debate. Por isso, três outros acadêmicos foram convidados para fazerem suas observações e objeções aos argumentos de Craig.

William Lane Craig é professor de filosofia na Talbot School of Theology, da Biola University em La Mirada, California (EUA). É também autor de mais de 30 livros e de mais de 100 artigos revisados por pares nas áreas de filosofia e teologia. Possui PhD em filosofia pela Universidade de Birmingham e PhD em teologia pela Universidade de Munich, orientado pelo notável teólogo Wolfhart Pannenberg.

Craig inicia sua fala relembrando dos tempos em que viveu no Reino Unido como estudante de doutorado, e que durante esse tempo, ele e sua mulher Jan tiveram uma profunda afeição pelo país, e que é uma imensa alegria retornar ao Reino Unido para essa série de palestras. Ele prossegue sua fala se referindo ao artigo que teria publicado [1] meses antes da palestra sobre o renascimento da discussão sobre os argumentos para a existência de Deus, e que, junto com comentários de apreciação do artigo, também haviam comentários depreciativos, sugerindo que tais argumentos teriam sido refutados por Richard Dawkins em seu livro The God Delusion. Por isso, Craig se põe a fazer a sua apresentação sobre os argumentos para a existência de Deus, mas dando atenção especial para as objeções feitas por Dawkins.

Dawkins não chega a fazer objeções ao argumento cosmológico apresentado por Craig no artigo, o Argumento da Contingência. Para Craig, isso é surpreendente, pois esta é a versão mais famosa dos argumentos cosmológicos, sendo considerado como argumento cosmológico “padrão”. Nesse sentido, é falso dizer que Dawkins teria respondido a este argumento. No entanto, Dawkins chega a discutir sobre o argumento cosmológico Kalam. Dawkins não faz objeções às premissas, mas tão somente às implicações teológicas da conclusão do argumento.

A conclusão do argumento Kalam é a de que o universo tem uma causa. A implicação dessa conclusão é que a causa do universo deve transcender o universo, já que é impossível que uma coisa se cause a si mesma. A criação do universo implica na criação do espaço, do tempo e da matéria. Por isso, essa causa precisa transcender o espaço e o tempo, sendo assim, não-espacial e nem temporal. Se não é temporal, então é imutável, e portanto, também é imaterial, já que a matéria é mutável. Além de tudo isso, tal causa é pessoal, já que só existem dois tipos de explicação causal: explicações científicas, em termos de leis naturais, ou explicações pessoais, em termos de agência. Como antes do universo não havia nada, e portanto nenhum mundo físico para que pudessem ser aplicadas explicações científicas, então a causa do universo só poderia ser pessoal, através de um agente. Em resumo, a causa do universo é uma mente pessoal, imaterial (por ser imutável) e não-temporal (e portanto, eterna). Isto é o que se entende de Deus.

A única reclamação que Dawkins faz é a de que tal argumento não prova que essa causa seja onipotente, onisciente, boa, ouvinte de preces e perdoadora de pecados. Mas “e daí?”, diz Craig. O argumento cosmológico Kalam não intenciona provar tais atribuições a respeito da causa do universo. Um ateísmo que concede a todos os atributos já provados, mas nega a validade do argumento por não provar outros atributos é uma forma estranha, ou até bizarra, de ateísmo. O ponto é que um ser como descrito pelas implicações da conclusão do argumento deva existir. Outras atribuições até poderiam também existir nesse ser, mas o argumento não intenciona demonstrar essas atribuições adicionais.

Sobre o argumento moral, Dawkins também não parece fazer objeções. Dawkins acredita que “no fundo, não exista design, nenhum propósito, nenhum mal, nem bem, nada a não ser uma indiferença cruel”. No entanto, apesar de dizer isso, ele age com moralismo ao condenar diversas atitudes, como doutrinação religiosa de crianças, ou maus tratos a pessoas homossexuais, ou também práticas de sacrifício humano entre tribos incas. Ele chega até a criar sua própria versão dos Dez Mandamentos. Esse tipo de comportamento entra em conflito direto com o seu subjetivismo ético.

Com respeito ao argumento teleológico, Dawkins defende que a melhor explicação para o ajuste fino das constantes das leis da física seja o acaso, apelando para a hipótese do multiverso. No entanto, essa hipótese sofre de dificuldades enormes, tanto fisicamente, tanto quanto como modelos viáveis de explicação do ajuste fino, uma vez que no final, acabam dependendo de ajuste fino do próprio mecanismo de produção de universos. Nesse sentido, a explicação do ajuste fino ainda permanece: ela apenas teria sido empurrada para um contexto maior do que o nosso universo.

Quanto à hipótese do design para explicar o ajuste fino do universo, Dawkins faz a objeção que tal explicação gera um problema ainda maior, o de saber “quem teria projetado o projetista”. No entanto, um princípio básico da filosofia da ciência é de que para que uma explicação seja considerada válida, não é necessário ter uma explicação da explicação. Tentar retroceder para descobrir quem projetou o projetista para que essa explicação seja aceita é uma violação desse princípio básico. Se tal conduta fosse a norma, todo tipo de explicação seria inválido, já que a explicação da explicação também requeriria uma explicação anterior, e nunca seria possível explicar nada, já que haveria um regresso infinito de explicações. Todo esforço científico seria destruído dessa maneira. Por isso, a objeção de Dawkins à hipótese do design não é válida.

Dawkins não pára por aí. Ela objeta também que se o projetista do universo é Deus, então essa explicação é ainda mais complexa que o universo. No entanto, “simplicidade” não é o único nem tampouco o critério mais importante para avaliar uma explicação. Existem critérios como “poder explanatório”, ou “escopo explanatório”, “plausibilidade”, e outros tantos. Além disso, ainda que aquele critério fosse usado, não é correto dizer que Deus seja tão ou mais complexo do que o universo. Uma mente, enquanto entidade não corpórea, é uma entidade muito simples, o que não deve ser confundido com as possíveis ideias que essa mente venha a ter, as quais podem sim ser complexas. Uma mente como causa inicial do universo é um avanço no conhecimento, pois é uma entidade mais simples, não sendo física e nem constituída de partes.

Finalmente, o argumento ontológico. Este argumento é formulado na terminologia dos “mundos possíveis”, e inicia com a premissa de que “é possível que exista um ser de máxima grandeza”, e terminando com a conclusão de que “um ser de máxima grandeza existe”. A noção de um “ser de máxima grandeza” não é incoerente, e portanto ela é possível. No entanto, Dawkins meramente cita Kant, dizendo que “a existência não é uma perfeição”. Craig diz que a citação é irrelevante, pois não há nada no argumento que assuma a perfeição da existência. Mas Dawkins passa também a fazer paródia do argumento, dizendo que um deus que tenha criado tudo e não exista seja superior a um deus que exista e tenha criado tudo. Craig diz que tal assertiva, longe de provar que Deus não exista, na verdade reforça o argumento ontológico, pois um ser que cria tudo e não existe é uma contradição lógica, e portanto, incoerente. Já a noção de “ser de máxima grandeza” não é incoerente. Dawkins ainda diz que seria possível provar, com uma adaptação do argumento ontológico, que porcos podem voar, e que teriam que usar da lógica modal para provar o contrário. Em resposta, Craig mostra o quão embaraçoso é afirmar tal coisa, pois o argumento ontológico é um exercício de lógica modal, já que ele foi formulado na terminologia dos “mundos possíveis” e faz uso das noções de necessariedade e possibilidade.

Para finalizar, Craig observa que nenhuma das objeções feitas por Dawkins foi realmente injuriante e, menos ainda, mortal para os argumentos em favor da existência de Deus.

Aqui abaixo está o vídeo do debate. Até o momento não parece haver nenhuma versão traduzida desse vídeo para o português.


Referências

[1] O artigo está disponível no link http://www.reasonablefaith.org/theistic-critiques-of-atheism.


Saulo Reis
Saulo Reis

Diretor do Acrópole da Fé Cristã e mestrando em Matemática pela Unifesp. Engenheiro de Computação por profissão; professor de Matemática por paixão; Teólogo por amor a Deus.

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