O prêmio anual Templeton, que reconhece as contribuições de maior destaque para “afirmar a dimensão espiritual da vida”, foi concedido nesta terça-feira (19/mar/2019) ao brasileiro Marcelo Gleiser — um físico teórico dedicado a demonstrar que ciência e religião não são inimigos.

Gleiser é professor de física e astronomia cujas especializações incluem cosmologia, tendo nascido no Rio de Janeiro e mora nos Estados Unidos desde 1986. Agnóstico, ele não acredita em Deus — mas se recusa a abandonar completamente a possibilidade da existência de Deus.

“O ateísmo é inconsistente com o método científico”, disse Gleiser à AFP na segunda-feira no Dartmouth College, a universidade de New Hampshire, onde ele leciona desde 1991. “O ateísmo é uma crença na não-crença. Então você está negando categoricamente algo contra o que não existem provas.[…] Mantenho a mente aberta porque entendo que o conhecimento humano é limitado”, acrescentou.

Prêmio da fundação John Templeton

O prêmio é financiado pela fundação John Templeton — uma organização filantrópica batizada em homenagem ao presbiteriano americano que fez fortuna em Wall Street, e que começou a “buscar provas de atuação divina em todos os ramos da ciência”, como disse o The Economist. Marcelo Gleiser se une a Desmond Tutu, ao Dalai Lama e ao dissidente autor soviético Aleksandr Solzhenitsyn como receptores do prêmio, concedido pela primeira vez em 1973. O prêmio de £ 1,1 milhão (cerca de R$ 4,8 milhões) supera o prêmio Nobel.

O físico se concentra em tornar mais acessíveis assuntos complexos. Ele já escreveu sobre mudanças climáticas, sobre Einstein, furacões, buracos negros, sobre a consciência humana — traçando os elos entre as ciências e as humanidades, incluindo a filosofia. Autor de cinco livros em língua inglesa e centenas de artigos de blog e de imprensa nos EUA e no Brasil, Gleiser também explorou em profundidade como a ciência e a religião tentam responder a perguntas sobre as origens da vida e do universo.

“A primeira coisa que você vê na Bíblia é uma história da criação”, disse ele. Seja qual for a sua religião, “todo mundo quer saber como o universo veio a existir”. Essa curiosidade fundamental une ciência e religião, embora cada uma delas forneça respostas muito diferentes: a ciência tem uma metodologia, em que hipóteses podem ser eliminadas. “A ciência pode dar respostas a algumas questões, até certo ponto […] Isso já é conhecido há muito tempo na filosofia, e é chamado de problema da primeira causa: estamos presos”, disse o físico e também pai de cinco filhos. “Devemos ter a humildade de aceitar que há um mistério ao nosso redor”.

Arrogância Científica

O que Gleiser acha das pessoas que acreditam que a Terra foi criada em sete dias? “Eles vêem a ciência como inimiga… porque eles têm um modo muito antiquado de pensar sobre ciência e religião, e que todos os cientistas tentam matar Deus […] A ciência não mata a Deus”.

Por outro lado, ele acusa os “novos ateístas” de fazer um desserviço à ciência ao tornar a religião uma inimiga: o notável cientista britânico Richard Dawkins (primeiro à direita na foto) — que pediu a prisão do papa Bento XVI por pedofilia na Igreja Católica — e o falecido jornalista Christopher Hitchens (segundo à direita), que criticou Madre Teresa. Para Gleiser, que cresceu na comunidade judaica do Rio, a religião não é apenas a crença em Deus: ela também fornece um senso de identidade e comunidade. “Pelo menos metade da população mundial é assim”, continua.

“É extremamente arrogante que os cientistas desçam das suas torres de marfim e façam essas declarações sem entender a importância social dos sistemas de crenças […] Quando você ouve cientistas muito famosos fazendo pronunciamentos como ‘a cosmologia explicou a origem do universo e de tudo, e nós não precisamos mais de Deus’, isso é um absurdo completo”, acrescentou.

“Porque nós não explicamos a origem do universo”, finaliza Gleiser.


Este texto é uma tradução adaptada do original “Physicist Marcelo Gleiser: ‘Science does not kill God'”, no site da phys.org.


Saulo Reis
Saulo Reis

Diretor do Acrópole da Fé Cristã e mestrando em Matemática pela Unifesp. Engenheiro de Computação por profissão; professor de Matemática por paixão; Teólogo por amor a Deus.

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.