Hoje vamos conhecer melhor quem é Jane Austen. Se você leu meu texto anterior “Jane Austen responde ao Ateísmo” e não a conhece muito bem, vamos mostrar um pouco quem foi essa brilhante mulher e como ela influenciou no estilo literário de sua época.

Breve História de Jane Austen

Jane Austen é, sem dúvida, uma das autoras de maior renome nos últimos tempos e de grande influência mesmo depois de tantos anos após a sua morte. Seus traços irônicos e em muitos casos imperceptíveis numa primeira leitura, compõem sua assinatura como romancista. Nascida em Hampshire em 16 de dezembro de 1775, filha do reverendo George Austen e Cassandra Austen, é a segunda filha de sete irmãos. Uma de suas melhores amigas foi Cassandra, uma de suas irmãs, com quem dividiu seu tempo de internato a fim de ter uma educação formal.

Aos 19 anos escreveu o livro Lady Susan. Em seguida escreveu Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito em 1797. As suas publicações não foram bem aceitas pelos editores num primeiro momento, só chegaram a ser publicadas em 1811 e 1813, respectivamente. É autora também de Emma, Mansfield Park, A abadia de Nothanger. Jane retrata a sociedade de sua época nesses romances tendo como pano de fundo o retrato de mulheres que buscavam casar-se a fim de ascender socialmente. Em cada romance, além de suas descrições belíssimas dos cenários que compõem a história, Jane descreve com maestria os seus personagens, suas personalidades e em muitos casos com aquela pitada irônica que só Jane tem.

Ela faleceu aos 42 anos de mal de Addison e nunca deixou em momento algum de ter seus momentos com Deus e de escrever belas orações. Todos esses escritos foram guardados pela sua irmã Cassandra. Sua última obra a ser publicada foi Persuasão, foi lançado um ano após a sua morte, mas já estava pronto a algum tempo.

Jane Austen e o feminismo

Deborah Kaplan é uma das inúmeras estudiosas de Jane Austen, porém sua perspectiva sobre a autora é amplamente ligado ao feminismo. Ela parte do pressuposto a que sociedade em que vivia a autora, era patriarcal e por esta razão, seus romances foram diretamente influenciados por este patriarcalismo, em especial na formação de seus personagens femininos.

Kaplan diz que Jane Austen em Orgulho e Preconceito, bem como em outros romances, ratificam o patriarcalismo com a resolução de casamentos. Como já fora dito anteriormente, Jane Austen retratou a sociedade de sua época e em especial as mulheres e sua busca por casamentos bem sucedidos, aqui vale um grifo desta que vos escreve “busca de casamentos bem sucedidos”.

Jane Austen e feminismo se opõem por uma simples razão, Jane combatia tudo aquilo que repudiava. Em suas orações ela pedia a Deus para que a livrasse do orgulho, da arrogância, da ganância e da falta de humildade, por exemplo. Ao retratar suas personagens femininas, a autora demonstra muita precisão nos seus perfis psicológicos. Além disso, a mulher não é diminuída, pelo contrário, é muito valorizada e posta num patamar de igualdade com o homem. Obviamente, não estamos falando aqui em igualar a mulher de uma época muito antes de o feminismo pensar em existir aos nossos dias. A mulher daquela época estudava, cuidava da casa e dos filhos e em muitos casos administrava financeiramente o seu lar como é o caso em Persuasão. O ponto é: as mulheres de Austen eram únicas, diferentes entre si e tinham seu valor. Entretanto, cometiam erros, tinham um estilo de vida que não condizia cm a realidade ou eram egoístas, como todo ser humano.

As mulheres de Jane Austen

Para não haver dúvidas, vamos analisar as mulheres de Austen em Orgulho e Preconceito.

Esse é um dos romances mais famosos de Jane Austen e já se tornou uma série na BBC e depois de alguns anos,  um filme estrelado por Keira Knightley e Matthew Macfadyen.

Vejamos como Jane Austen constrói essas personagens. Com a exceção do Mr. Bennett, faremos a análise das mulheres da família Bennett, por ora.

Mr. Bennett — esposo de Miss. Bennet e pai de cinco filhas. É um homem muito culto, um cavalheiro, mas não deixa de ser irônico com sua esposa. O motivo é simples: a esposa não parece ser uma mulher muito equilibrada, e é dela que falaremos em seguida. Vale lembrar que dentre as cinco filhas, suas preferidas são Elizabeth e Jane.

Miss. Bennet — Uma mulher ansiosa, vive se queixando de tremores, dores, não é muito dada a boa educação além de ser pouco inteligente, extremamente preocupada com o casamento de suas filhas. Claro, não é qualquer casamento que ela deseja para suas filhas. Suas preferências sempre são os solteirões ricos.

Elizabeth Bennet — É nítido  o carinho e a proximidade que ela tem com seu pai. Lizzie é tão culta e inteligente como seu pai, não tem nenhum traço da personalidade de sua mãe. É uma mulher de gênio e personalidade fortes, logo não seria qualquer homem que conquistaria seu coração. É uma mulher muito atraente, mas seu maior defeito é julgar o que vê e a quem vê a partir de suas primeiras  impressões. Liz é muito sincera e não leva desaforo para casa. Lizzie é muito amiga de sua irmã Jane Bennet.

Jane Bennet — A mais velha das irmãs com uma personalidade muito diferente da de sua irmã um ano mais nova, Lizzie. Ainda assim, as duas são muito amigas e o leitor tem a impressão de haver um complemento nessa amizade. É uma mulher linda, a mais bonita da região, e ao mesmo tempo, doce, tímida, reservada e que acaba por esconder o que sente muitas vezes. Jane muitas vezes vê apenas o lado bom das pessoas.

Mary Bennet — A terceira das irmãs Bennet, é uma personagem mediana. Ela tenta ser tão culta quanto as irmãs, mas não consegue. Não apresenta ter um bom gosto, nem genialidade. No baile, ela tenta cantar uma música, mas acaba por envergonhar sua família.

Catherine “Kitty” Bennet —  Kitty é uma menina teimosa e frívola. Vive a sombra da irmã mais nova Lydia.

Lydia Bennet — Frívola, teimosa, é muito parecida com sua mãe. Flerta com os militares e é defendida pela sua mãe sempre que faz alguma bobagem. Ao casar-se e fugir com Wickham, mesmo depois de todo o embaraço causado a sua família, não demonstra nenhum arrependimento. Ao contrário, pensa que as irmãs a invejam por terem feito algo tão grandioso.

Tendo um panorama dessas mulheres, é bem possível traçar uma diferença grande entre elas e ao mesmo tempo, quando lemos o romance, vemos que não há como dizer que essas mulheres são vítimas de patriarcalismo.

Miss. Bennet, Lydia e Kitty são o retrato da mulher cuja única preocupação é fazer um bom casamento, de preferência com homens ricos. O que se pode tirar de bom dessas personagens é que a teimosia, o orgulho, a ganância, a falta de caráter trazem consequências negativas e que podem ser levadas por toda a vida.

Naquele tempo, a mulher tornava-se motivo de fofoca e desprezo quando casava sem o consentimento dos pais e fugir. Essa atitude é típica dos romances da época do ultra romantismo que tem como caracterísca forte os amores impossíveis, idealizados e platônicos. Ou seja, totalmente fora da realidade. Jane nos mostra a realidade neste romance. Basta ver as consequências que Lydia sofre por fazer tão grande bobagem, como descrito acima.

Lizzie é aquela mulher que, de tão inteligente que é, leva em conta as primeiras impressões. Ainda assim, não deixa de ser uma mulher sensível. Não tem nada de interesseira, pelo contrário. Não apresenta o mesmo egoísmo das irmãs mais novas, apenas o seu orgulho e uma certa superficialidade. Mas como raramente ela se enganava a  respeito das pessoas, então damos um desconto.

Jane já é mais dócil, mas não apresenta tantas defesas como Lizzie. Pode-se dizer que seu defeito é esconder o que pensa e sente por medo de ser rejeitada, por exemplo. É o que acontece na sua relação com Mr. Bingley. Ele é apaixonado por ela  assim como ela é por ele, mas ela tem tantos medos e dúvidas que Lizzie tem de ser o cupido desse casal.

Como vemos, Jane e Lizzie não são vítimas de um suposto sistema e nem são diminuídas. O que faz os leitores se encantarem por este romance é a verdade que existe em cada personagem. Nenhuma personagem está fadada ao fracasso do casamento, como dizem as feministas. Liz e Jane casam-se por que amam seus pares e não por obrigação social ou para ter uma ascensão social. Elas encontram pares que as complementam e que em nada as diminuem. Elas puermanecem sendo quem são: sinceras, meigas, irônicas, tímidas. Com exceção de Lydia que tem um final de “garota mal falada”.

Como o Cristianismo pode influenciar a literatura?

Já se sabe que Jane Austen era filha de um reverendo e que cultivou seus momentos de intimidade com Deus, ela buscava enxergar a si mesma e era ali que quebrantava seu coração.

Suas orações escritas e guardadas, sendo publicadas em Jane Austen’s prayers. Nessas orações, ela pedia misericórdia a Deus por suas faltas, seus pecados. Há orações em que ela usa a primeira pessoa do plural, intercedendo por outras pessoas.

Esse conhecimento e reonhecimento de si mesmo traz a noção do que não é bom, louvável e agradável a Deus. Isto inclui aspectos da nossa natureza que muitas vezes julgamos corretos, mas não o são. Muitas das vezes, não temos a consciência do tamanho e da proporção que nossos erros podem ter e trazer para nossas vidas.

Jane tinha isso em mente. Basta ler em suas orações. Não basta ser um bom cristão dominical e pensar que casamento bom é casamento financeiramente bem sucedido ou qualquer outra coisa do tipo.

Jane tinha uma visão de vida correta quanto ao caráter, a família, a vida com Deus e porque não dizer quanto ao uso de seus talentos para glorificar a Deus.

Além disso, Jane Austen retrata uma mulher que tem valor, que tem personalidade e que não está distante dos romances platônicos e idealistas. Jane não precisou vitimizar suas personagens por causa do patriarcalismo, ao contrário ela cria personagens as quais pensam, agem e colhem os frutos de suas ações. Alguns são bons, outros são amargos. E ter essa visão das coisas não pode ter outra influência senão o cristianismo.

É este cristianismo que evoca uma beleza que vai além da imaginação humana. Na literatura, podemos ver a presença do cristianismo por meio de contruções de enredos que, ao invés de relativizar o bem e o mal, demonstram-os, assim como as consequências das escolhas boas ou ruins de seus personagens. Uma boa literatura com esta base em vista, mostra dois lados distintos, duas raízes e dois tipos de frutos completamente diferentes entre si.

Lewis e Toljien usaram da mesma cosmovisão cristã ao escrever seus livros. Com esta visão de mundo, ambos demonstraram que há um mundo mal, há uma única forma de redimir o homem, ou seja, nem tudo está perdido e também é possível que a história mude. E essa visão não tem nada de ideal, ela é real.

O cristianismo nos transforma espiritualmente e também no nosso modo de pensar e ver a vida. Desta forma, podemos viver o cristianismo nas nossas tarefas diárias mostrando quem somos realmente. Se esta é uma premissa verdadeira, então por que é tão difícil ver uma arte e literatura que mostrem e glorifiquem mais o criador que a nós mesmos?

É nesse aspecto que muitas vezes negligenciamos. Podemos usar nossos talentos para glorificar a Deus e apontar para a Sua beleza em forma de pintura, escultura, poesia e prosa. Existem muitos ‘ismos’ ao nosso redor e no fim das contas, essas ideologias não respondem ao anseio maior do homem.

Como cristãos, se sabemos o quanto Jesus mudou e muda a nossa história, então porque não escrevermos ou pintarmos algum quadro que reflita essa ideia? Por que deixamos os adolescentes fantasiarem romances com base na troilogia 50 tons de cinza, sendo que o verdadeiro amor não objetifica o ser amado?

Não há nada que possa mudar a nossa forma de pensar como o cristianismo. Não há como o relativismo e outros ismos preencherem a lacuna da nossa existência. Não há luz sem que eu veja que estou em trevas. Não há criação ou criatura sem um Autor. Não haveria nada nesse universo, muito menos beleza, se não houvesse Deus.

O Cristianismo é e deve continuar sendo a contra cultura de uma era decaída.


Sueli Loiola
Sueli Loiola

Minha mente não para. Em tudo ela se mete. Lê aqui e acolá. Respostas com dúvidas, mas tenho encontrado muitas respostas duvidosas. A verdade é o que me interessa porque a Verdade é a que liberta. Por causa dela emudecemos, por ela nos humilhamos, com ela crescemos.

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