Muitos líderes cristãos estão preocupados com o impacto que a mídia visual está tendo no cristianismo. Sua preocupação se centra em grande parte em torno da mensagem moral nos filmes contemporâneos, nas séries de televisão e nos comerciais — a maioria dos quais contraria o ensino dos autores do Novo Testamento. Mas isso não é a maior ameaça que o nosso consumo de mídia representa para a cosmovisão cristã. Nossa maior preocupação deve ser o modo pelo qual consumimos informação, notícias e entretenimento, ao invés do conteúdo dessa mídia.

Um artigo do final do ano passado, no USA Today, ilustra o problema. Jovens (de 18 a 34 anos) tem fugido das redes tradicionais de televisão em números recordes. “Nas quatro semanas anteriores ao dia 28 de outubro, coincidindo com o início da temporada oficial de TV, o número de pessoas entre 18 e 34 anos que usam a TV despencou 15% e caiu 36% em relação a 2014. A queda entre os adolescentes — 18% do ano passado e 48% desde 2014 — é ainda mais pronunciada”.

Não é que os jovens consumam menos mídia do que os mais velhos — longe disso. Em vez disso, “gerações mais jovens estão crescendo com mais opções na ponta dos dedos”. Essa realidade ameaça o cristianismo na América, da mesma forma que ameaça quase todas as outras cosmovisões maiores do mundo. Por quê? Devido aos nossos hábitos estarem mudando enquanto consumidores de mídia, as pessoas estão menos propensas a compartilharem da mesma metanarrativa.

A importância das metanarrativas

O Oxford Dictionary descreve uma metanarrativa — no inglês, metanarrative — como “um relato abrangente ou interpretação de eventos e circunstâncias que fornece um padrão ou estrutura para as crenças das pessoas e dá sentido às suas experiências”. A mídia geralmente molda nossas metanarrativas. Quando há menos vozes da mídia — menos escolhas na miscelânea de cosmovisões —, é muito mais provável que nós compartilhemos uma visão do mundo. Na verdade, antes que a era da informação acontecesse, poucas pessoas estavam sequer cientes da existência de cosmovisões concorrentes. Mas tudo isso mudou.

Agora, todo mundo têm acesso a informações sobre sistemas sociais, políticos e econômicos concorrentes, bem como todo o leque de cosmovisões religiosas. Mais importante, podemos customizar nosso consumo de mídia para amplificar ou ignorar qualquer visão do mundo que preferimos ou rejeitamos. Não precisamos assistir às mesmas opções de mídia relativamente semelhantes que nossos pais tinham. Em vez disso, podemos fugir para as nossas próprias realidades na mídia — tão individualizadas quanto elas possam ser — e nos saturar em narrativas e histórias que se encaixem em nossos caprichos e fantasias pessoais.

Nosso acesso ilimitado e personalizado à mídia está lentamente destruindo nosso senso de narrativa compartilhada, seja essa narrativa cristã ou não.

Vivemos em uma época na história em que metanarrativas culturais amplas, como o cristianismo, são menos difundidas e influentes do que nunca antes. A tecnologia de escolha nos permite criar nossas próprias “micronarrativas”. Ainda adoramos histórias e novidades, mas é menos provável que compartilhemos a mesma história.

Menos metanarrativas, mais “micronarrativas”

Nossa capacidade atual de consumir livremente a mídia representa uma ameaça ao cristianismo. Isso encoraja a nos isolarmos e a nos impregnarmos de micronarrativas, em vez de narrativas compartilhadas. Essas narrativas compartilhadas costumam unir as pessoas, fornecendo linguagem comum, valores comuns e expectativas comuns.

Com certeza, o cristianismo não é a única cosmovisão abrangente que será afetada pela mudança da história compartilhada. Outras metanarrativas políticas, sociais e religiosas também diminuirão em importância. De fato, qualquer esforço para fornecer um “padrão ou estrutura compartilhada para as crenças das pessoas” para dar “significado às suas experiências” será enfraquecido pelo nosso crescente desejo de autonomia no nosso consumo de mídia.

Então, da próxima vez que você estiver disposto a reclamar sobre as polarizações que você sente entre as pessoas, ou sobre o estado declinante de valores comuns, tire um minuto para examinar seu próprio consumo de mídia. Nosso acesso ilimitado e personalizado à mídia está lentamente destruindo nosso senso de narrativa compartilhada, seja essa narrativa cristã ou não.


Este texto é uma tradução adaptada do artigo de J. Warner Wallace em “How Media Consumption Threatens the Future of Christianity”, no site Christian Post.


Saulo Reis
Saulo Reis

Diretor do Acrópole da Fé Cristã e mestrando em Matemática pela Unifesp. Engenheiro de Computação por profissão; professor de Matemática por paixão; Teólogo por amor a Deus.

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