Meu nome é Felipe Forti, sou estudante de Filosofia e dono do blog Olhar Unificado. Este é meu primeiro post no Acrópole da Fé Cristã. Minha ideia é fazer uma série sobre um dos principais argumentos para a existência de Deus (e meu argumento favorito): O Argumento Cosmológico. Esse argumento visa demonstrar a existência de Deus a partir da origem do universo. Nesse primeiro texto, farei uma introdução ao argumento.

Introdução

Uma das formas de demonstrar a existência de Deus é utilizando os argumentos filosóficos da Teologia Natural. A Teologia Natural é o estudo da existência de Deus a partir da natureza. O Apóstolo Paulo fala sobre essa demonstração da existência de Deus, por exemplo, em Romanos 1:20, que diz que “desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas” (NVI). Talvez um dos argumentos mais antigos para a existência de Deus seja o Argumento Cosmológico. Na verdade, “Argumento Cosmológico” constitui uma família de argumentos. Existem três versões principais do Argumento Cosmológico: O Argumento Cosmológico Tomista, o Argumento Cosmológico de Leibniz e o Argumento Cosmológico Kalam.

Qual é a diferença entre os Argumentos Cosmológicos?

O Argumento Cosmológico Tomista (ACT) veio a partir do uso de ideias de Aristóteles por São Tomás de Aquino. Ele visa a busca por um Motor Imóvel, ou uma Causa Primeira do movimento no universo. Mas é importante notar que este argumento não tem a intenção de demonstrar uma Primeira Causa que criou o universo. Esse é um dos vários erros que Richard Dawkins comete em seu livro Deus, um delírio (na verdade, é evidente que Dawkins não entendeu nenhum dos argumentos para a existência de Deus). Dawkins tenta rebater o ACT falando da origem do universo, o que é totalmente irrelevante para o argumento. Tomás de Aquino elaborou o argumento de modo que justamente desviasse da questão da origem do universo. O que ele busca é um primeiro Motor Imóvel, que é ato puro, responsável pela continua mudança do mundo.

Outro argumento que não tem por objetivo a busca pela Primeira Causa do Universo é o Argumento Cosmológico de Leibniz (ACL). Leibniz utilizou o Principio da Razão Suficiente (PRS) que é um princípio metafísico que diz que tudo o que existe possui uma explicação para a sua existência: Ou por alguma explicação externa, ou por necessidade de sua própria natureza. Como um regresso infinito de explicações contingentes é impossível, deve haver uma Explicação Necessária, que é o ponto de parada das explicações. Leibniz propôs o argumento de modo que não precisasse apelar para a origem do universo. Em outras palavras, mesmo se o universo fosse eterno, ele ainda seria contingente e precisaria de uma explicação Necessária.

Uma introdução ao Argumento Cosmológico Kalam

Mas talvez o mais falado dos Argumentos Cosmológicos seja o Argumento Cosmológico Kalam, devido a sua ardente defesa por parte do filósofo contemporâneo William Lane Craig. Esse sim é um argumento que busca a Primeira Causa Não-Causada do universo. O argumento segue três etapas simples:

Premissa 1 – Tudo o que começa a existir tem uma causa
Premissa 2 – O universo começou a existir
Conclusão – Portanto, o universo teve uma causa.

Essa formulação do argumento foi feita pelo filósofo islâmico Al-Ghazali em sua obra A Incoerência dos Filósofos. Al-Ghazali apresenta uma série de argumentos contra o passado eterno, mas talvez o argumento mais famoso seja o apelo à impossibilidade de uma regressão infinita de tempo no passado. Considere o seguinte: Se o passado fosse eterno, quantos eventos teriam acontecido até hoje? Claramente teriam acontecido infinitos eventos. Mas se fossem passados dez milhões de eventos no passado, quantos ainda faltariam para se chegar até hoje? Ora, ainda faltariam infinitos eventos. Mesmo que se passassem três trilhões de eventos (ou, qualquer número) ainda faltariam infinitos eventos. Em outras palavras, se o universo fosse eterno, hoje jamais chegaria. Porém, estamos aqui! Portanto, deve haver um início do universo. Mas, se o tempo teve um início, então ele deve ter tido uma causa atemporal.

A Expansão do Universo

Apesar de esse ser um argumento forte que é defendido até hoje, evidências científicas confirmam a conclusão de que o universo teve um início. Uma das mais poderosas evidências da origem do universo vem da expansão do universo, que foi descoberta quando Georges Lamaître e Alexander Friedmann utilizaram os cálculos da Teoria da Relatividade de Albert Einstein. Mais tarde, essa teoria foi confirmada pela observação de que as galáxias estavam se afastando, emitindo um desvio vermelho da luz. Novamente, essa teoria foi confirmada por Arno Penzias e Robert Wilson, quando eles detectaram a Radiação Cósmica de Fundo, que era uma predição do que deveria ser descoberto se o universo realmente tivesse tido um início.

Se o universo está expandindo, então em algum ponto do passado o universo começou em um pequeno ponto que os cientistas chamam de Singularidade. Esse início marca o início do tempo, do espaço e da matéria. Em outras palavras, é o início da própria natureza.

O Princípio da Causalidade

Agora, vamos voltar para Aristóteles por um instante. Aristóteles distinguia quatro tipos de causa: Causa Eficiente, Causa Material, Causa Formal e Causa Final. A Causa Eficiente é o causador de algo. A Causa Material é a matéria que compõe aquilo que foi causado. A Causa Formal é a forma do objeto. E a Causa Final é o propósito para o qual aquele objeto foi criado.

Agora, qual é a primeira premissa do ACK? “Tudo o que começa a existir tem uma causa.” Esse é um apelo ao princípio da causalidade. Não existem efeitos sem causa. Na verdade, é necessariamente verdadeiro que efeitos devem possuir causas, já que esse é o próprio conceito de “efeito”. Mas como pode o universo ter tido uma causa se não havia material antes? Ora, temos duas opções: Ou (a) o universo brotou do nada sem causa eficiente ou material; ou (b) o universo possui apenas uma causa eficiente.

Parece claro que a alternativa (a) é a mais absurda, pois viola o princípio da causalidade. Ninguém acredita que algo possa brotar do nada. Enquanto você toma seu café da manhã, você não está preocupado que um tigre vá brotar embaixo da sua mesa. Por outro lado, não há bons motivos para se duvidar de (b). A causalidade não envolve, necessariamente, causas materiais. Os seus pensamentos possuem causa eficiente, mas não causa material. Se você imaginar um elefante rosa e eu partir seu cérebro ao meio, não encontrarei o elefante rosa, pois ele não possui matéria.

As propriedades da causa do universo

Dado que nós temos bons motivos para crer que o universo começou a existir e nenhum bom motivo para duvidar que coisas que vem a existir possuem causas, então devemos concluir que o universo possui uma causa. Mas nós não devemos simplesmente apelar para as lacunas e dizer que, portanto, Deus criou o universo. Devemos dizer por que é racional se crer que Deus criou o universo.

Dado o fato que a origem do universo marca o início do tempo, do espaço e da matéria, então essa causa deve ser atemporal, imaterial e não-espacial. Ou seja, ela deve transcender a natureza (ou, podemos colocar que ela deve ser sobrenatural). Como ela criou todo o universo a partir de nada, então deve ser infinitamente poderosa. Além disso, ela deve ser não-causada, pois uma regressão infinita de causas é impossível.

Como se não bastasse essas serem as características tradicionais de Deus, podemos dizer que essa causa também deve ser um Agente Pessoal. O motivo é simples: Imagine que essa causa possui, em sua existência, todas as condições necessárias para a produção do universo. Por que o universo já não estava presente junto dessa causa? Para ilustrar esse ponto, imagine uma vela existindo pela eternidade. Todas as condições necessárias para produzir o calor estão lá. Sendo assim, ela produz o calor. Não haveria nenhum momento em que esse fogo começou a produzir o calor. No caso do universo, por que ele começou apenas em algum ponto no passado? A única solução para esse problema é se a causa puder escolher criar o universo. Assim como um homem sentado eternamente poderia escolher quando se levantar, a causa do universo tem que ser dotada de livre arbítrio para escolher quando criar o universo.

Logo…

Em suma, o Argumento Cosmológico Kalam nos leva a uma causa atemporal, imaterial, não-espacial, sobrenatural, infinitamente poderosa, não-causada e pessoal – que é o que todo mundo chama de Deus.


Referências:

CRAIG, William Lane. Apologética contemporânea: A veracidade da fé cristã. 2ª Ed. São Paulo: Vida Nova, 2012.

______, Em Guarda: Defenda a fé cristã com razão e precisão, São Paulo: Vida Nova, 2011.

______,The kalãm cosmological argument, The MacMillan Press, 1979.

GEISLER, Norman (ed.); MEISTER, Chad V., Razões para crer: Apresentando argumentos a favor da fé cristã, Rio de Janeiro: CPAD, 2013.

GEISLER, Norman; TUREK, Frank, Não tenho fé suficiente para ser ateu, São Paulo: Vida, 2006.


Felipe Forti
Felipe Forti

Formado em Design Gráfico pela FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas e em Teatro pelo Teatro Escola Macunaíma. Atualmente cursa Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie e Dublagem na Dubrasil - Central da Dublagem. Pretendo fazer Teologia assim que possível. Sou apaixonado por Apologética Cristã e entendo que devo estar sempre preparado para fazer uma defesa a qualquer um que me pedir a razão da esperança que há em mim. (1 Pedro 3:15) Sou autor dos livros A Verdade que existe: Amando a Deus com todo o intelecto e A Gênese em Gênesis: Uma Refutação Bíblica do Criacionismo de Terra Jovem. Ambos podem ser comprados no site do Clube de Autores.

    1 Response to "Argumento Cosmológico: uma introdução"

    • Alexsandro Agustini

      Ótima leitura! Sou um jovem cristão de 15 anos, e há pouco tempo, milhares de dúvidas corroem a minha mente durante todo o dia, e eu sei que há uma resposta para elas em algum lugar, porém nunca sei onde encontrar, estou tentando aprofundar meus conhecimentos na área de Teologia, para conseguir argumentar à favor de Deus.

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