No texto introdutório sobre o Argumento Cosmológico, vimos que existem três tipos de argumentos cosmológicos. Contudo, entre eles, aquele que tem se tornado mais conhecido entre apologetas cristãos modernos é o Argumento Cosmológico Kalam (ACK). Este argumento foi o tema da tese de doutorado em filosofia do Dr William Lane Craig pela Universidade de Birmingham, a qual foi a base para que ele também escrevesse três livros sobre este argumento [1]. Tudo isso fez com que o Dr Craig se tornasse hoje o defensor mais conhecido do ACK.

Este argumento é um dos argumentos mais conhecidos da Teologia Natural, ao lado do Argumento Teleológico e do Argumento Moral. A notoriedade do Argumento Cosmológico é reconhecida até por pensadores e cientistas ateus, fato esse que pode ser percebido até em obras dedicadas ao ateísmo, como por exemplo, The Cambridge Companion to Atheism:

O fato de que tanto os crentes como os ateus não conseguirem deixar o argumento Kalam em paz sugere que ele seja um argumento de interesse filosófico nada usual, ou que ele tenha um centro de plausibilidade atrativo que mantém os filósofos sempre recorrendo a ele para examiná-lo novamente.

A fama do Argumento Cosmológico pode ser justificada pela sua importância, pois trata do início do universo, tópico de intenso debate nos círculos científicos. A estrutura do argumento é esta:

Premissa 1 – Tudo o que começa a existir tem uma causa.
Premissa 2 – O universo começou a existir.
Conclusão – Portanto, o universo teve uma causa.

Vamos procurar entender a estrutura desse argumento, detalhando o por que é mais plausível acreditar na verdade das suas premissas do que nas suas respectivas negações. Acreditar na existência de Deus, por isso, é mais racional do que acreditar na sua não-existência.

Tudo o que começa a existir tem uma causa

A primeira premissa deste argumento é o que é conhecido como lei da causalidade, e que é a razão de ser de todo empreendimento científico. Dizer que “tudo o que começa a existir teve uma causa” traz consigo a ideia de que qualquer efeito possuiu uma causa, e estabelecer esta relação é o princípio do conhecimento, que é a ciência mesma. Para Francis Bacon, o fundador da ciência moderna, o conhecimento verdadeiro é o conhecimento da causa. O cético moderno David Hume também afirmava a lei da causalidade, chamando de “absurda” a proposição oposta de que algo pudesse surgir sem uma causa. Essa lei não só permeia todo esforço científico, como também toda experiência do homem sobre o universo, e inclusive o próprio pensamento racional humano, capaz de adquirir conhecimento e fazer ciência. Essa é a posição de Thomas H. Huxley, que ressalta o caráter absoluto da lei da causalidade:

O único ato de fé do convertido à ciência é a confissão da universalidade da ordem e da validade absoluta, em todo o tempo e em todas as circunstâncias, da lei da causalidade. Essa confissão se trata de um ato de fé, porque, por sua própria natureza, a veracidade de tais proposições não pode ser provada [2].

A verdade da lei da causalidade é evidente, e mesmo que ainda não seja assim percebida, ao menos ela é mais evidente do que o seu oposto. Mas o que seria o oposto da lei da causalidade? É necessário entender que a causalidade vem da intuição metafísica de que alguma coisa não pode vir a existir a partir do nada. Pois, vir a existir sem qualquer tipo de causa é o mesmo que vir a existir do nada (MORELAND & CRAIG, 2005). “Dizer que as coisas podem simplesmente começar a existir do nada, sem coisa alguma, é abrir mão da metafísica séria e recorrer à magia” (CRAIG, 2012, p. 107). Craig diz isso na compreensão de que negar a lei da causalidade seja uma hipótese — e não uma conclusão — pois, partindo dessa hipótese, procurou verificar sua consequência prática, que é a recorrência a magia.

No entanto, pode-se também compreender a negação da lei da causalidade como se fosse uma conclusão. É preciso notar antes que, para que se chegue a alguma conclusão sobre qualquer coisa, é necessário que haja uma reunião de pensamentos. Na situação de alguém que negue a lei da causalidade como uma conclusão, os pensamentos representam a causa da conclusão a que tal pessoa chegou, a saber, negar a lei da causalidade. Esta conclusão representa o efeito da causa. Houve aí, portanto, uma contradição entre a prática e a teoria. Na teoria, o pensador nega a causalidade. Na prática, ele usou a causalidade, já que sem ela, o pensador não teria tirado conclusão alguma. Com isso, nota-se que até a própria conclusão no oposto da lei da causalidade é efeito da causalidade: pois se alguém defende que a lei da causalidade é falsa, só pôde chegar a tal conclusão por ter tido pensamentos prévios, que foram a causa dessa conclusão. Portanto, ir contra a lei da causalidade é incoerente em si mesmo, representando também a negação da racionalidade.

Críticas

Existem críticas a este modo de usar a causalidade, enquanto premissa em um argumento que afirma a causa do universo. Afirma-se que este modo de causalidade só é aplicável a coisas no universo, mas não ao universo em si mesmo. Esta crítica, como afirma Craig, não faz a devida interpretação do princípio causal, pois:

a premissa não afirma a existência de uma lei meramente física, como a lei da gravidade ou as leis da termodinâmica, que são válidas para coisas que fazem parte do universo. A premissa não é um princípio físico: o ser não pode provir do não ser; uma coisa não pode vir a existir do nada sem causa alguma. O princípio, portanto, aplica-se a toda a realidade e, por conseguinte, é um absurdo metafísico que o universo venha a existir do nada sem causa alguma [3].

Outra possível crítica à essa premissa é a de que a física quântica oferece algumas exceções a lei da causalidade, uma vez que no mundo subatômico, nem tudo parece ter causa. Esta crítica parece ser baseada em uma interpretação indeterminista, dentre as várias possíveis interpretações deterministas da física quântica. Porém, ainda que se use tal interpretação, a lei da causalidade não é violada. Para Craig, a crítica segundo a visão indeterminista equivoca-se, já que:

Em primeiro lugar, nem todos os cientistas subscrevem a ideia de que os eventos subatômicos não tenham causa. Atualmente, um grande número de físicos se diz insatisfeito com essa interpretação (conhecida como Interpretação de Copenhague) da física quântica e recorre a teorias deterministas como a de David Bohm. Portanto, a física quântica não é uma exceção comprovada à premissa. Em segundo lugar, nem mesmo de acordo com a interpretação tradicional, não determinista, as partículas surgem do nada. Elas irrompem como flutuações espontâneas da energia contida no vácuo subatômico, que é a causa não determinista de sua origem. Em terceiro lugar, o mesmo se pode dizer das teorias sobre a origem do universo de um vácuo primordial (…) O vácuo não é nada, e sim um mar de energia flutuante dotado de uma rica estrutura e sujeito às leis da física. Esses modelos, portanto, não remetem a uma origem verdadeiramente ex nihilo [4].

Dessa forma, têm-se boas razões para se aceitar a afirmação feita na primeira premissa.

No próximo texto, vamos iniciar a justificativa da segunda premissa do argumento, sobre o começo da existência do universo.


Referências

[1] Reasonable Faith, O argumento cosmológico kalam. Disponível em <http://pt.reasonablefaith.org/artigos/artigos-de-divulgacao/o-argumento-cosmologico-emkalam-em>; acesso em 30/abr/2018.

[2] DARWIN, Francis, ed. The Life and Letters of Charles Darwin. Londres: John Murray, 1887, vol.2, p. 200.

[3] CRAIG, 2012, p. 109.

[4] CRAIG, 2012, p. 110.

Bibliografia

CRAIG, William Lane. Apologética contemporânea: A Veracidade da Fé Cristã. 2ª Ed. São Paulo: Vida Nova, 2012.

MORELAND, James P.; CRAIG, William L. Filosofia e Cosmovisão Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2005.

SMITH, Q. Kalam cosmological arguments for atheism. In M. Martin. The Cambridge Companion to Atheism. Cambridge: Cambridge University Press.


Saulo Reis
Saulo Reis

Diretor do Acrópole da Fé Cristã e mestrando em Matemática pela Unifesp. Engenheiro de Computação por profissão; professor de Matemática por paixão; Teólogo por amor a Deus.

    3 replies to "Argumento Cosmológico Kalam: Entendendo sua Estrutura (parte 1)"

    • Adão Fausto Souza da Silva

      Amei esse argumento.

    • […] mais de noventa e três bilhões de anos para ir de uma extremidade à outra do universo. Oh, quão grande é a obra criada! Pois, infinitamente maior é o Criador. Ele existe antes da criação. Ele é independente da […]

    • Edgar de Andrade Xavier

      O argumento cosmológico kalam é muito profundo e bastante convincente, embora as tentativas de refutações por parte de ateus preocupem, pois têm certa força. Outro argumento forte é o da sintonia fina (fine tuning), sustentado por Luke Barnes, Robin Collins, Rodney Holder e outros. Estudo esses argumentos há anos e sinto falta de discutir essas questões com outras pessoas que também estudam. Gostaria de participar de grupo de estudos sobre esses argumentos, mas não sei da existência de grupo de estudos e discussão formado por pessoas que se comuniquem através da Internet. Fiz mestrado em filosofia e estou tentando ampliar meus conhecimentos em teologia filosófica. Edgar de Andrade Xavier

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