Os argumentos morais para a existência de Deus são geralmente empregados com o propósito de defender a afirmação de que Deus existe. Contudo, eles sugerem algo mais específico do que a existência de um mero “legislador universal”, ou um Deus genérico. É possível chegar a uma conclusão mais detalhada do que isso. O ponto é que esses argumentos são considerados evidências plausíveis de que o Cristianismo, em particular, é verdade.

Antes de iniciarmos a exposição, é necessário explicar outro ponto importante: não é verdade que somente pela apologética moral se possa deduzir os aspectos da revelação especial contidos no Cristianismo, de modo algum. Contudo, à luz do Cristianismo revelado, os argumentos morais para a existência de Deus apontam naturalmente em sua direção. A apologética moral apenas reforça aquele famoso questionamento oriundo da experiência moral comum e universal do ser humano, a de que “existe algo de errado com o mundo”. Contudo, não resolve o problema moral. Somente a revelação especial, através de Jesus Cristo, é capaz de solucionar o problema moral e a experiência moral comum e universal.

A exposição a seguir não é exaustiva, mas traz algumas boas razões para pensar que a apologética moral aponta em específico para o Cristianismo, isto é, para Jesus Cristo.

Jesus como fonte de toda moralidade

Em primeiro lugar, uma das grandes virtudes dos argumentos morais em favor da existência de Deus é que eles apontam não apenas para a existência de Deus, mas para um Deus de uma natureza particular: um Deus que é moralmente perfeito. A.C Ewing diz que a fonte da lei moral é moralmente perfeita. Essa noção é descrita de vários modos: todo bondoso, impecável, essencialmente bom, e assim por diante. E como seria se a toda bondade assumisse uma forma humana? Jesus é uma resposta poderosa para esse questionamento. A apologética moral funciona melhor quando é cristocêntrica.

A descrição do amor de Deus revela sua Trinitariedade

Em segundo lugar, a concepção de Deus como essencialmente e perfeitamente amoroso requer algum tipo de explicação. Essa explicação não poderia ser o tipo de ideia que nós fôssemos capazes de gerar por conta própria; nós dependemos de uma revelação especial para que essa explicação seja feita. Mas o Cristianismo nos fornece um relato da natureza divina que é trinitária por natureza. C. S. Lewis escreveu em Cristianismo Puro e Simples: “Todo mundo gosta de repetir a afirmação cristã de que ‘Deus é amor’. Mas essas pessoas parecem não notar que as palavras “Deus é amor” não têm significado real a menos que Deus contenha pelo menos duas Pessoas. O amor é algo que uma pessoa tem para outra pessoa. Se Deus fosse uma pessoa apenas, então antes que o mundo fosse criado, Ele não poderia ser amor”. A apologética moral funciona melhor quando é trinitária.

Uma cosmovisão particularmente transformadora

Em terceiro lugar, o Cristianismo tem um histórico comprovado de influenciar pessoas de quaisquer raças e etnias, e também de todos os contextos socioeconômicos, transformando radicalmente as vidas dessas pessoas. Em um livro, que narra as vidas espirituais de vários santos cristãos, chamado They Found the Secret, encontra-se essa descrição: “Do desencorajamento e da derrota, eles chegaram à vitória. Pela fraqueza e pelo cansaço, eles foram fortalecidos. Pela ineficácia e pela aparente inutilidade, tornaram-se eficientes e entusiastas. Esse padrão parece ser egocêntrico, com esforço próprio, aumentando a insatisfação interna e o desencorajamento externo, numa tentação de desistir de tudo, porque não haveria melhor caminho. Então, encontraram o Espírito de Deus para ser sua força, seu guia, sua confiança e companheira — em uma palavra, sua vida”. A apologética moral funciona melhor quando é individualmente transformadora.

Uma cosmovisão universalmente transformadora

Em quarto lugar, Paul Copan fala de um aspecto histórico da apologética moral: o papel histórico desempenhado por Cristo e seus devotos seguidores em promover justiça para todos. A moralidade também exige uma transformação cultural profunda. Copan cita os desenvolvimentos culturais específicos que tiveram origem na cosmovisão judaico-cristã, levando a criação de sociedades que são “mais propensas ao progresso do que resistentes a ele”. Entre esses desenvolvimentos, ele inclui a fundação da ciência moderna, a diminuição da pobreza através do mercado livre, igualdade de direitos para todos perante a lei, liberdade religiosa, sufrágio das mulheres, iniciativas em prol dos direitos humanos e a abolição da escravatura, entre outros tantos.

Jürgen Habermas, que não é cristão, escreve:

“O cristianismo funciona mais como fator de autocompreensão normativa da modernidade do que um mero precursor ou um catalisador dela. O universalismo igualitário — do qual surgiram as idéias de liberdade e solidariedade social — de uma conduta autônoma de vida e emancipação, a moralidade individual da consciência, dos direitos humanos e da democracia, são herdeiros diretos da ética judaica de justiça e da ética cristã do amor. Este legado, substancialmente inalterado, tem sido objeto de contínua apropriação crítica e reinterpretação. Até hoje, não há alternativa para ele. À luz dos desafios atuais do mundo pós-nacional, continuamos ainda assim a nos basear na substância dessa herança. Tudo o mais é só conversa pós-moderna”.

A apologética moral funciona melhor quando é culturalmente transformadora.

Uma cosmovisão que liberta e oferece propósito de vida

Em quinto lugar, o Cristianismo mantém a esperança de genuína transformação moral. A moralidade tem um padrão ao qual nenhum de nós consegue manter em todo o tempo, e também não há nada nessa moralidade que indique que devamos nos acomodar nessa situação ou nos descompromissar dela. A explicação final e correta da moralidade deve ser capaz de dar sentido às nossas aspirações de transformação moral radical e também à perfeição moral. O Cristianismo oferece, pela graça de Deus através da fé, esperança moral em vez de desespero moral, perdão e libertação da culpa, e a perspectiva de sermos totalmente conformados à imagem de Cristo, em quem não há sombra de falha. A ressurreição de Cristo nos oferece a cura tanto da morte como do pecado: uma vida abundante e eterna. A apologética moral funciona melhor quando é soteriológica — oferecendo perdão e transformação, assim como justificação e santificação.

Em sexto lugar, o Cristianismo nos dá princípios racionais para acreditar que a glória que está por vir não apenas superará os piores males deste mundo, mas definitivamente os derrotará. “Se a Bondade Divina é infinita, e se uma relação íntima com Ela é incomensuravelmente boa para as pessoas criadas, então conseguimos identificar um Bem grande o suficiente para derrotar quaisquer tipos de horrores”, diz a filósofa cristã Marilyn Adams. A apologética moral funciona melhor quando é escatológica.

Uma cosmovisão que justifica o valor intrínseco do ser humano

Em sétimo lugar, o Cristianismo dá razões convincentes para pensar que cada pessoa possua dignidade e valor infinitos. Ser amado por Deus, o próprio arquétipo de bondade — Seu amor por cada um de nós de forma diferente, mas por todos nós infinitamente — e o fato de nós termos sido feitos como pessoas à Sua imagem e semelhança, são indicativos de que nós possuímos mais valor do que podemos começar a imaginar. A humanidade não é valiosa apenas no seu coletivo, de acordo com o cristianismo. Ao contrário disso, cada pessoa é única e amada por Deus, e é alguém por quem Jesus sofreu e morreu. No livro de Apocalipse, para todo aquele que aceita o amor de Deus, uma pedra branca revelará um nome único para cada um — marcando sua relação distinta com Deus e sua vocação nEle (Ap 2:17). A apologética moral funciona melhor quando é universal.

Conclusão

Da mesma forma como um amontoado desorganizado de limalhas de metal se ergue em formação simétrica quando atraídas por um imã, a história correta que organizará o universo — o teísmo clássico do Cristianismo — consegue alinhar todas as evidências morais da experiência humana, permitindo que nós enxergássemos esse padrão universal.


Este é um texto adaptado de “Seven Reasons Why Moral Apologetics Points to Christianity”, no site Moral Apologetics.


Saulo Reis
Saulo Reis

Diretor do Acrópole da Fé Cristã e mestrando em Matemática pela Unifesp. Engenheiro de Computação por profissão; professor de Matemática por paixão; Teólogo por amor a Deus.

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